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    Padrão Lingua portuguesa

    LINGUA PORTUGUESA





    A língua portuguesa, com mais de 260 milhões de falantes, é, como língua nativa, a quinta língua mais falada no mundo e a terceira mais falada no mundo ocidental, e tem origem em Portugal, daí o nome "português" dado ao idioma. Além de Portugal, ele é oficial em Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e, desde 13 de julho de 2007, na Guiné Equatorial, sendo também falado nos antigos territórios da Índia Portuguesa (Goa, Damão, Ilha de Angediva, Simbor, Gogolá, Diu e Dadrá e Nagar-Aveli). Possui estatuto oficial na União Europeia, no Mercosul, na União Africana, na Organização dos Estados Americanos, na União Latina, na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e na Associação dos Comités Olímpicos de Língua Oficial Portuguesa (ACOLOP).

    A língua portuguesa é uma língua românica, tal como o castelhano, o catalão, o italiano, o francês e o romeno. Mais especificamente, o português pertence ao grupo ibero-românico.

    Assim como os outros idiomas, o português sofreu uma evolução histórica, sendo influenciado por vários idiomas e dialetos, até chegar ao estágio conhecido atualmente. Deve-se considerar, porém, que o português de hoje compreende vários dialetos e subdialetos, falares e subfalares, muitas vezes bastante distintos, além de dois padrões reconhecidos internacionalmente (português brasileiro e português europeu). No momento actual, o português é a única língua do mundo ocidental falada por mais de cem milhões de pessoas com duas ortografias oficiais (note-se que línguas como o inglês têm diferenças de ortografia pontuais mas não ortografias oficiais divergentes), situação a que o Acordo Ortográfico de 1990 pretende pôr cobro.

    Segundo um levantamento feito pela Academia Brasileira de Letras, a língua portuguesa tem, atualmente, cerca de 356 mil unidades lexicais. Essas unidades estão dicionarizadas no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa.

    O português é conhecido como "A língua de Camões" (em homenagem a Luís Vaz de Camões, escritor português, autor de Os Lusíadas) e "A última flor do Lácio" (expressão usada no soneto Língua Portuguesa, do escritor brasileiro Olavo Bilac). Miguel de Cervantes, o célebre autor espanhol, considerava o idioma "doce e agradável".

    Nos séculos XV e XVI, à medida que Portugal criava o primeiro império colonial e comercial europeu, a língua portuguesa se espalhou pelo mundo, estendendo-se desde as costas Africanas até Macau, na China, ao Japão e ao Brasil, nas Américas. Como resultado dessa expansão, o português é agora língua oficial de oito países independentes além de Portugal, e é largamente falado ou estudado como segunda língua noutros. Há, ainda, cerca de vinte línguas crioulas de base portuguesa. É uma importante língua minoritária em Andorra, Luxemburgo, Paraguai, Namíbia, Maurícia, Suíça e África do Sul. Encontram-se, também, numerosas comunidades de emigrantes, em várias cidades em todo o mundo, onde se fala o português como Paris na França; Hamilton nas Ilhas Bermudas que faz parte dos territórios britânicos ultramarinos localizada no Oceano Atlântico; Toronto, Hamilton, Montreal e Gatineau no Canadá; Boston, Nova Jérsei e Miami nos EUA e Nagoia e Hamamatsu no Japão.


    O que é a língua portuguesa?

    O PORTUGUÊS é a língua que os portugueses, os brasileiros, muitos africanos e alguns asiáticos aprendem no berço, reconhecem como património nacional e utilizam como instrumento de comunicação, quer dentro da sua comunidade, quer no relacionamento com as outras comunidades lusofalantes.
    Esta língua não dispõe de um território contínuo (mas de vastos territórios separados, em vários continentes) e não é privativa de uma comunidade (mas é sentida como sua, por igual, em comunidades distanciadas). Por isso, apresenta grande diversidade interna, consoante as regiões e os grupos que a usam. Mas, também por isso, é uma das principais línguas internacionais do mundo.
    É possível ter percepções diferentes quanto à unidade ou diversidade internas do português, conforme a perpectiva do observador.
    Quem se concentrar na língua dos escritores e da escola, colherá uma sensação de unidade.
    Quem comparar a língua falada de duas regiões (dialectos) ou grupos sociais (sociolectos) não escapará a uma sensação de diversidade, até mesmo de divisão.


    Unidade

    Uma língua de cultura como a nossa, portadora de longa história, que serve de matéria prima e é produto de diversas literaturas, instrumento de afirmação mundial de diversas sociedades, não se esgota na descrição do seu sistema linguístico: uma língua como esta vive na história, na sociedade e no mundo.
    Tem uma existência que é motivada e condicionada pelos grandes movimentos humanos e, imediatamente, pela existência dos grupos que a falam.
    Significa isto que o português falado em Portugal, no Brasil e em África pode continuar a ser sentido como uma única língua enquanto os povos dos vários países lusofalantes sentirem necessidade de laços que os unam. A língua é, porventura, o mais poderoso desses laços.
    Diz, a este respeito, o linguista português Eduardo Paiva Raposo:

    A realidade da noção de língua portuguesa, aquilo que lhe dá uma dimensão qualitativa para além de um mero estatuto de repositório de variantes, pertence, mais do que ao domínio linguístico, ao domínio da história, da cultura e, em última instância, da política. Na medida em que a percepção destas realidades for variando com o decorrer dos tempos e das gerações, será certamente de esperar, concomitantemente, que a extensão da noção de língua portuguesa varie também.


    Diversidade

    A diversidade linguística que o português apresenta através do seu enorme espaço pluricontinental é, inevitavelmente, muito grande e certamente vai aumentar com o tempo.
    Os linguistas acham-se divididos a esse respeito: alguns acham que, já neste momento, o português de Portugal (PE) e o português do Brasil (PB) são línguas diferentes; outros acham que constituem variedades bastante distanciadas dentro de uma mesma língua.
    Última edição por mercenário; 2nd September 2009 às 17:54

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    5 - Sistema de acentuação gráfica (bases VIII a XIII)

    5.1 - Análise geral da questão
    O sistema de acentuação gráfica do português actualmente em vigor, extremamente complexo e minucioso, remonta essencialmente à Reforma Ortográfica de 1911.
    Tal sistema não se limita, em geral, a assinalar apenas a tonicidade das vogais sobre as quais recaem os acentos gráficos, mas distingue também o timbre destas.
    Tendo em conta as diferenças de pronúncia entre o português europeu e o do Brasil, era natural que surgissem divergências de acentuação gráfica entre as duas realizações da língua.
    Tais divergências têm sido um obstáculo à unificação ortográfica do português.
    É certo que em 1971, no Brasil, e em 1973, em Portugal, foram dados alguns passos significativos no sentido da unificação da acentuação gráfica, como se disse atrás. Mas, mesmo assim, subsistem divergências importantes neste domínio, sobretudo no que respeita à acentuação das paroxítonas.
    Não tendo tido viabilidade prática a solução fixada na Convenção Ortográfica de 1945, conforme já foi referido, duas soluções eram possíveis para se procurar resolver esta questão.
    Uma era conservar a dupla acentuação gráfica, o que constituía sempre um espinho contra a unificação da ortografia.
    Outra era abolir os acentos gráficos, solução adoptada em 1986, no Encontro do Rio de Janeiro.
    Esta solução, já preconizada no I Simpósio Luso-Brasileiro sobre a Língua Portuguesa Contemporânea, realizado em 1967 em Coimbra, tinha sobretudo a justificá-la o facto de a língua oral preceder a língua escrita, o que leva muitos utentes a não empregarem na prática os acentos gráficos, visto que não os consideram indispensáveis à leitura e compreensão dos textos escritos.
    A abolição dos acentos gráficos nas palavras proparoxítonas e paroxítonas preconizada no Acordo de 1986, foi, porém, contestada por uma larga parte da opinião pública portuguesa, sobretudo por tal medida ir contra a tradição ortográfica e não tanto por estar contra a prática ortográfica.
    A questão da acentuação gráfica tinha, pois, de ser repensada.
    Neste sentido, desenvolveram-se alguns estudos e fizeram-se vários levantamentos estatísticos com o objectivo de se delimitarem melhor e quantificarem com precisão as divergências existentes nesta matéria.
    5.2 - Casos de dupla acentuação
    5.2.1 - Nas proparoxítonas (base XI)
    Verificou-se assim que as divergências, no que respeita às proparoxítonas, se circunscrevem praticamente, como já foi destacado atrás, ao caso das vogais tónicas e e o, seguidas das consoantes nasais m e n, com as quais aquelas não formam sílaba (v. base XI, 3.º).
    Estas vogais soam abertas em Portugal e nos países africanos, recebendo, por isso, acento agudo, mas são do timbre fechado em grande parte do Brasil, grafando-se por conseguinte com acento circunflexo: académico/acadêmico, cómodo/cômodo, efémero/efêmero, fenómeno/fenômeno, génio/gênio, tónico/tônico, etc.
    Existe uma ou outra excepção a esta regra, como, por exemplo, cômoro e sêmola, mas estes casos não são significativos.
    Costuma, por vezes, referir-se que o a tónico das proparoxítonas quando seguido de m ou n com que não forma sílaba, também está sujeito à referida divergência de acentuação gráfica. Mas tal não acontece, porém, já que o seu timbre soa praticamente sempre fechado nas pronúncias cultas da língua, recebendo, por isso, acento circunflexo: âmago, ânimo, botânico, câmara, dinâmico, gerânio, pânico, pirâmide.
    As únicas excepções a este princípio são os nomes próprios de origem grega Dánae/Dânae e Dánao/Dânao.
    Note-se que se as vogais e e o, assim como a, formam sílaba com as consoantes m ou n, o seu timbre é sempre fechado em qualquer pronúncia culta da língua, recebendo, por isso, acento circunflexo: êmbolo, amêndoa, argênteo, excêntrico, têmpera; anacreôntico, cômputo, recôndito; cânfora, Grândola, Islândia, lâmpada, sonâmbulo, etc.
    5.2.2 - Nas paroxítonas (base IX)
    Também nos casos especiais de acentuação das paroxítonas ou graves (v. base IX, 2.º), algumas palavras que contêm as vogais tónicas e e o em final de sílaba, seguidas das consoantes nasais m e n, apresentam oscilação de timbre nas pronúncias cultas da língua.
    Tais palavras são assinaladas com acento agudo, se o timbre da vogal tónica é aberto, ou com acento circunflexo, se o timbre é fechado: fémur ou fêmur, Fénix ou Fênix, ónix ou ônix, sémen ou sêmen, xénon ou xênon; bónus ou bônus, ónus ou ônus, pónei ou pônei, ténis ou tênis, Vénus ou Vênus; etc. No total, estes são pouco mais de uma dúzia de casos.
    5.2.3 - Nas oxítonas (base VII)
    Encontramos igualmente nas oxítonas [v. base VIII, 1.º a), obs.] algumas divergências de timbre em palavras terminadas em e tónico, sobretudo provenientes do francês. Se esta vogal tónica soa aberta, recebe acento agudo; se soa fechada, grafa-se com acento circunflexo. Também aqui os exemplos pouco ultrapassam as duas dezenas: bebé ou bebê, caraté ou caratê, croché ou crochê, guiché ou guichê, matiné ou matinê, puré ou purê; etc. Existe também um caso ou outro de oxítonas terminadas em o ora aberto ora fechado, como sucede em cocó ou cocô, ró ou rô.
    A par de casos como este há formas oxítonas terminadas em o fechado, às quais se opõem variantes paroxítonas, como acontece em judô e judo, metrô e metro, mas tais casos são muito raros.
    5.2.4 - Avaliação estatística dos casos de dupla acentuação gráfica
    Tendo em conta o levantamento estatístico que se fez na Academia das Ciências de Lisboa, com base no já referido corpus de cerca de 110000 palavras do vocabulário geral da língua, verificou-se que os citados casos de dupla acentuação gráfica abrangiam aproximadamente 1,27% (cerca de 1400 palavras). Considerando que tais casos se encontram perfeitamente delimitados, como se referiu atrás, sendo assim possível enunciar a regra de aplicação, optou-se
    por fixar a dupla acentuação gráfica como a solução menos onerosa para a unificação ortográfica da língua portuguesa.
    5.3 - Razões da manutenção dos acentos gráficos nas proparoxítonas e paroxítonas
    Resolvida a questão dos casos de dupla acentuação gráfica, como se disse atrás, já não tinha relevância o principal motivo que levou em 1986 a abolir os acentos nas palavras proparoxítonas e paroxítonas.
    Em favor da manutenção dos acentos gráficos nestes casos, ponderaram-se, pois, essencialmente as seguintes razões:
    a) Pouca representatividade (cerca de 1,27%) dos casos de dupla acentuação;
    b) Eventual influência da língua escrita sobre a língua oral, com a possibilidade de, sem acentos gráficos, se intensificar a tendência para a paroxitonia, ou seja, deslocação do acento tónico da antepenúltima para a penúltima sílaba, lugar mais frequente de colocação do acento tónico em português;
    c) Dificuldade em apreender correctamente a pronúncia de termos de âmbito técnico e científico, muitas vezes adquiridos através da língua escrita (leitura);
    d) Dificuldades causadas, com a abolição dos acentos, à aprendizagem da língua, sobretudo quando esta se faz em condições precárias, como no caso dos países africanos, ou em situação de auto-aprendizagem;
    e) Alargamento, com a abolição dos acentos gráficos, dos casos de homografia, do tipo de análise (s.)/analise (v.), fábrica (s.)/fabrica (v.), secretária (s.)/secretaria (s. ou v.), vária (s.)/varia (v.), etc., casos que, apesar de dirimíveis pelo contexto sintáctico, levantariam por vezes algumas dúvidas e constituiriam sempre problema para o tratamento informatizado do léxico;
    f) Dificuldade em determinar as regras de colocação do acento tónico em função da estrutura mórfica da palavra. Assim, as proparoxítonas, segundo os resultados estatísticos obtidos da análise de um corpus de 25000 palavras, constituem 12%. Destes 12%, cerca de 30% são falsas esdrúxulas (cf. génio, água, etc.). Dos 70% restantes, que são as verdadeiras proparoxítonas (cf. cómodo, género, etc.), aproximadamente 29% são palavras que terminam em -ico/-ica (cf. ártico, económico, módico, prático, etc.). Os restantes 41% de verdadeiras esdrúxulas distribuem-se por cerca de 200 terminações diferentes, em geral de carácter erudito (cf. espírito, ínclito, púlpito; filólogo; filósofo; esófago; epíteto; pássaro; pêsames; facílimo; lindíssimo; parêntesis; etc.).
    5.4 - Supressão de acentos gráficos em certas palavras oxítonas e paroxítonas (bases VIII, IX e X)
    5.4.1 - Em casos de homografia (bases VIII, 3.º, e IX, 9.º e 10.º)23
    O novo texto ortográfico estabelece que deixem de se acentuar graficamente palavras do tipo de para (á), flexão de parar, pelo (ê), substantivo, pelo (é), flexão de pelar, etc., as quais são homógrafas, respectivamente, das proclíticas para, preposição, pelo, contracção de per e lo, etc.
    As razões por que se suprime, nestes casos, o acento gráfico são as seguintes:
    a) Em primeiro lugar, por coerência com a abolição do acento gráfico já consagrada pelo Acordo de 1945, em Portugal, e pela Lei n.º 5765, de 18 de Dezembro de 1971, no Brasil, em casos semelhantes, como, por exemplo: acerto (ê), substantivo, e acerto (é), flexão de acertar; acordo (ô), substantivo, e acordo (ó), flexão de acordar; cor (ô), substantivo, e cor (ó), elemento da locução de cor; sede (ê) e sede (é), ambos substantivos; etc.;
    b) Em segundo lugar, porque, tratando-se de pares cujos elementos pertencem a classes gramaticais diferentes, o contexto sintáctico permite distinguir claramente tais homógrafas.
    5.4.2 - Em paroxítonas com os ditongos ei e oi na sílaba tónica (base IX, 3.º)
    23 A redacção da presente epígrafe foi corrigida pela Rectificação n.º 19/91 de 7 de Novembro, anteriormente “bases VIII, 3.º, e IX, 7.º e 8.º”.
    O novo texto ortográfico propõe que não se acentuem graficamente os ditongos ei e oi tónicos das palavras paroxítonas. Assim, palavras como assembleia, boleia, ideia, que na norma gráfica brasileira se escrevem com acento agudo, por o ditongo soar aberto, passarão a escrever-se sem acento, tal como aldeia, baleia, cheia, etc.
    Do mesmo modo, palavras como comboio, dezoito, estroina, etc., em que o timbre do ditongo oscila entre a abertura e o fechamento, oscilação que se traduz na facultatividade do emprego do acento agudo no Brasil, passarão a grafar-se sem acento.
    A generalização da supressão do acento nestes casos justifica-se não apenas por permitir eliminar uma diferença entre a prática ortográfica brasileira e a lusitana, mas ainda pelas seguintes razões:
    a) Tal supressão é coerente com a já consagrada eliminação do acento em casos de homografia heterofónica (v. base IX, 10.º,24 e, neste texto atrás, 5.4.1), como sucede, por exemplo, em acerto, substantivo, e acerto, flexão de acertar, acordo, substantivo, e acordo, flexão de acordar, fora, flexão de ser e ir, e fora, advérbio, etc.;
    b) No sistema ortográfico português não se assinala, em geral, o timbre das vogais tónicas a, e e o das palavras paroxítonas, já que a língua portuguesa se caracteriza pela sua tendência para a paroxitonia. O sistema ortográfico não admite, pois, a distinção entre, por exemplo: cada (â) e fada (á), para (â) e tara (á); espelho (ê) e velho (é), janela (é) e janelo (ê), escrevera (ê), flexão de escrever, e Primavera (é); moda (ó) e toda (ô), virtuosa (ó) e virtuoso (ô); etc.
    Então, se não se torna necessário, nestes casos, distinguir pelo acento gráfico o timbre da vogal tónica, por que se há-de usar o diacrítico para assinalar a abertura dos ditongos ei e oi nas paroxítonas, tendo em conta que o seu timbre nem sempre é uniforme e a presença do acento constituiria um elemento perturbador da unificação ortográfica?
    5.4.3 - Em paroxítonas do tipo de abençoo, enjoo, voo, etc. (base IX, 8.º)25
    Por razões semelhantes às anteriores, o novo texto ortográfico consagra também a abolição do acento circunflexo, vigente no Brasil, em palavras paroxítonas como abençoo, flexão de abençoar, enjoo substantivo e flexão de enjoar, moo, flexão de moer, povoo, flexão de povoar, voo, substantivo e flexão de voar, etc.
    O uso do acento circunflexo não tem aqui qualquer razão de ser, já que ele ocorre em palavras paroxítonas cuja vogal tónica apresenta a mesma pronúncia em todo o domínio da língua portuguesa. Além de não ter, pois, qualquer vantagem nem justificação, constitui um factor que perturba a unificação do sistema ortográfico.
    5.4.4 - Em formas verbais com u e ui tónicos, precedidos de g e q (base X, 7.º)26
    Não há justificação para se acentuarem graficamente palavras como apazigue, arguem, etc., já que estas formas verbais são paroxítonas e a vogal u é sempre articulada, qualquer que seja a flexão do verbo respectivo.
    No caso de formas verbais como argui, delinquis, etc., também não há justificação para o acento, pois se trata de oxítonas terminadas no ditongo tónico ui, que como tal nunca é acentuado graficamente.
    Tais formas só serão acentuadas se a sequência ui não formar ditongo e a vogal tónica for i, como, por exemplo, arguí (1.ª pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo).

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    6 - Emprego do hífen (bases XV a XVII).

    6.1 - Estado da questão
    No que respeita ao emprego do hífen, não há propriamente divergências assumidas entre a norma ortográfica lusitana e a brasileira. Ao compulsarmos, porém, os dicionários portugueses e
    24 Texto corrigido pela Rectificação n.º 19/91 de 7 de Novembro, anteriormente “v. base IX, 8.º”.
    25 A redacção da presente epígrafe foi corrigida pela Rectificação n.º 19/91 de 7 de Novembro, anteriormente “base IX, 9.º”.
    26 A redacção da presente epígrafe foi corrigida pela Rectificação n.º 19/91 de 7 de Novembro, anteriormente “base X, 6.º”.
    brasileiros e ao lermos, por exemplo, jornais e revistas, deparam-se-nos muitas oscilações e um largo número de formações vocabulares com grafia dupla, ou seja, com hífen e sem hífen, o que aumenta desmesurada e desnecessariamente as entradas lexicais dos dicionários. Estas oscilações verificam-se sobretudo nas formações por prefixação e na chamada recomposição, ou seja, em formações com pseudoprefixos de origem grega ou latina.
    Eis alguns exemplos de tais oscilações: ante-rosto e anterrosto, co-educação e coeducação, pré-frontal e prefrontal, sobre-saia e sobressaia, sobre-saltar e sobressaltar; aero-espacial e aeroespacial, auto-aprendizagem e autoaprendizagem, agro-industrial e agroindustrial, agro-pecuária e agropecuária, alvéolo-dental e alvealodental, bolbo-raquidiano e bolborraquidiano, geo-história e geoistória, micro-onda e microonda; etc.
    Estas oscilações são, sem dúvida, devidas a uma certa ambiguidade e falta de sistematização das regras que sobre esta matéria foram consagradas no texto de 1945. Tornava-se, pois, necessário reformular tais regras de modo mais claro, sistemático e simples. Foi o que se tentou fazer em 1986.
    A simplificação e redução operadas nessa altura, nem sempre bem compreendidas, provocaram igualmente polémica na opinião pública portuguesa, não tanto por uma ou outra incongruência resultante da aplicação das novas regras, mas sobretudo por alterarem bastante a prática ortográfica neste domínio.
    A posição que agora se adopta, muito embora tenha tido em conta as críticas fundamentadas ao texto de 1986, resulta, sobretudo, do estudo do uso do hífen nos dicionários portugueses e brasileiros, assim como em jornais e revistas.
    6.2 - O hífen nos compostos (base XV)
    Sintetizando, pode dizer-se que, quanto ao emprego do hífen nos compostos, locuções e encadeamentos vocabulares, se mantém o que foi estatuído em 1945, apenas se reformulando as regras de modo mais claro, sucinto e simples.
    De facto, neste domínio não se verificam praticamente divergências nem nos dicionários nem na imprensa escrita.
    6.3 - O hífen nas formas derivadas (base XVI)
    Quanto ao emprego do hífen nas formações por prefixação e também por recomposição, isto é, nas formações com pseudoprefixos de origem grega ou latina, apresenta-se alguma inovação. Assim, algumas regras são formuladas em termos contextuais, como sucede nos seguintes casos:
    a) Emprega-se o hífen quando o segundo elemento da formação começa por h ou pela mesma vogal ou consoante com que termina o prefixo ou pseudoprefixo (por exemplo: anti-higiénico, contra-almirante, hiper-resistente);
    b) Emprega-se o hífen quando o prefixo ou falso prefixo termina em m e o segundo elemento começa por vogal, m ou n (por exemplo: circum-murado, pan-africano).
    As restantes regras são formuladas em termos de unidades lexicais, como acontece com oito delas (ex-, sota- e soto-, vice- e vizo-; pós-, pré- e pró-).
    Noutros casos, porém, uniformiza-se o não emprego do hífen, do modo seguinte:
    a) Nos casos em que o prefixo ou o pseudoprefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por r ou s, estas consoantes dobram-se, como já acontece com os termos técnicos e científicos (por exemplo: antirreligioso, microssistema);
    b) Nos casos em que o prefixo ou o pseudoprefixo termina em vogal e o segundo elemento começa por vogal diferente daquela, as duas formas aglutinam-se, sem hífen, como já sucede igualmente no vocabulário científico e técnico (por exemplo: antiaéreo, aeroespacial).
    6.4 - O hífen na ênclise e tmese (base XVII)
    Quanto ao emprego do hífen na ênclise e na tmese mantêm-se as regras de 1945, excepto no caso das formas hei de, hás de, há de, etc., em que passa a suprimir-se o hífen. Nestas formas verbais o uso do hífen não tem justificação, já que a preposição de funciona ali como mero
    elemento de ligação ao infinitivo com que se forma a perífrase verbal (cf. hei de ler, etc.), na qual de é mais proclítica do que apoclítica.

  6. O seguinte Membro agradeceu a mercenário por essa útil mensagem:

    profiler (2nd September 2009)

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    7.2 - Abolição do trema (base XIV)


    No Brasil, só com a Lei n.º 5765, de 18 de Dezembro de 1971, o emprego de trema foi largamente restringido, ficando apenas reservado às sequências gu e qu seguidas de e ou i, nas quais u se pronuncia (cf. aguentar, arguente, eloquente, equestre, etc.).
    O novo texto ortográfico propõe a supressão completa do trema, já acolhida, aliás, no Acordo de 1986, embora não figurasse explicitamente nas respectivas bases. A única ressalva, neste aspecto, diz respeito a palavras derivadas de nomes próprios estrangeiros com trema (cf. mülleriano, de Müller, etc.).
    Generalizar a supressão do trema é eliminar mais um factor que perturba a unificação da ortografia portuguesa.





    8 – Estrutura e ortografia do novo texto

    Na organização do novo texto de unificação ortográfica optou-se por conservar o modelo de estrutura já adoptado em 1986. Assim, houve a preocupação de reunir, numa mesma base, matéria afim, dispersa por diferentes bases de textos anteriores, donde resultou a redução destas a 21.
    Através de um título sucinto, que antecede cada base, dá-se conta do conteúdo nela consagrado. Dentro de cada base adoptou-se um sistema de numeração (tradicional) que permite uma melhor e mais clara arrumação da matéria aí contida.
    Por último, dado que melhor se pode compreender e aprender um extenso Acordo como o presente através de um texto integral na nova ortografia, optou-se por que o texto do próprio Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990) desde já a utilizasse

  8. O seguinte Membro agradeceu a mercenário por essa útil mensagem:

    profiler (2nd September 2009)

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    Gramática - Sinais Ortográficos




    Além das letras há outros sinais ou acentos gráficos, que indicam, em geral, a pronúncia exacta das palavras.

    O ~ (til) serve para indicar as vogais e os ditongos nasais:

    Ex.: romã, mãe, cães, irmãos, limões, pão.

    O ´ (acento agudo) serve para indicar a vogal da sílaba tónica principal, quando isso é preciso para indicar a pronúncia. O acento agudo é obrigatório:

    1.º Na vogal aberta da sílaba predominante das palavras esdrúxulas:

    Ex.: fábrica, sílaba, pálido, tépido, Márcia, único, espírito;

    2.º Na sílaba final das palavras agudas, quando a respectiva vogal seja a, e ou o:

    Ex.: já, sabiá, café, rapé, pó;

    3.º Na vogal predominante que se segue a outra vogal, quando não deve formar ditongo com ela:

    Ex.: saída, saúde, baú, caído.

    O ` (acento grave) emprega-se:

    1.º Na contracção da preposição a com as formas femininas do artigo ou pronome demonstrativo o: à (de a + a), às de (a + as);

    2.º Na contracção da preposição a com os demonstrativos aquele(s), aquela(s) e aquilo ou com os compostos aqueloutro(s), aqueloutra(s) e suas flexões: àquele(s), àquela(s), àquilo, àqueloutro(s), àqueloutra(s);

    3.º Em contracções em que a primeira palavra é uma inflexiva terminada em a: ò (de a + o), òs (de a + os); prò (de pra + o), (de pra + os), etc.;

    4.º Nas palavras que tenham uma vogal aberta em sílaba átona e que estejam em homografia com formas etimologicamente paralelas nas quais a vogal correspondente é surda ou fechada: àgora (interjeição), e agora (interjeição, além de advérbio e conjunção); però (conjunção antiga) e pero (variante desta mesma conjunção).

    O ^ (acento circunflexo) é obrigatório:

    1.º Na sílaba final de uma palavra, quando a vogal respectiva seja o fechado ou e fechado:

    Ex.: avô, dê, vê;

    2.º Na vogal fechada da sílaba tónica das palavras esdrúxulas:

    Ex.: câmara, lâmpada, esplêndido, lêvedo, lânguido, sôfrego.

    A , (cedilha) indica que o c antes de a, o, u, tem o valor de s inicial:

    Ex.: açafate, açafrão, açor, açorda, açúcar, açude.

    O ' (apóstrofo) serve para indicar:

    1.º A supressão de uma vogal no verso, por exigência de metrificação:

    Ex.: c’roas, esp’rança, of’recer, ’star, minh’alma;

    2.º A elisão de vogal no interior de palavras compostas, quando essa elisão se faz invariavelmente na pronúncia brasileira e na portuguesa:

    Ex.: galinha-d’água, mãe-d’água;

    3.º A supressão da vogal final em santo e santa antes de nomes próprios do hagiológio:

    Ex.: Sant’Ana, Sant’Iago, Largo de Sant’Ana, Ordem de Sant’Iago.

    O ¨ (trema), que deixou de se usar em palavras portuguesas, depois da Convenção Ortográfica Luso-Brasileira de 1945, indicava que a vogal que o recebia não formava ditongo com a anterior, como em saudade, equidade, unguento, paisagem, sagui, etc. Deve usar-se, actualmente, apenas em palavras derivadas eruditamente de nomes próprios estrangeiros:

    Ex.: hübneriano [de Hübner], mülleriano [de Müller], wölffliniano [de Wölfflin]).

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    Fonética histórica

    Introdução

    As chamadas leis fonéticas, proclamadas pelos linguistas da escola Neo-Gramática do século XIX, são mudanças regulares que se observam na evolução de todas as línguas, motivadas pela configuração fonética das palavras. Não sendo, como se julgava inicialmente, maciças e inobserváveis, acabam, aos poucos, por afectar a quase totalidade do léxico de cada língua em determinada secção de tempo. São eventos históricos, sujeitos às mesmas contingências regionais, políticas, culturais e sociais dos outros eventos que atingem a vida de uma comunidade, o que significa que têm uma actuação limitada a um passo da história daquela mesma comunidade. Na evolução do latim falado no início do Império para o falado na România Ocidental (Norte de Itália, Gália, Récia e Hispânia) e desse para o romance galego-português, verificaram-se consideráveis mudanças regulares, determinadas pelo contexto fonético e que são, resumidamente, estas:


    Símbolos

    1. A mudança ocorrida entre duas formas separadas pelo tempo indica-se inscrevendo entre elas o parêntese angular >.

    2. As formas latinas, para imediato reconhecimento, escrevem-se em caracteres maiúsculos.

    3. Quando uma vogal acentuada latina é longa, a sua notação vem seguida do sinal : e, quando é breve, não é assinalada.

    4. Recorre-se aos parênteses rectos para incluir, no seu interior, uma letra, ou letras que interessa considerar pelo seu valor fonético. Se estiver em causa o seu valor fonológico, ou seja, a entidade abstracta a que correspondem no sistema de uma língua, já se recorre às barras oblíquas.

    5. O hífen no final de uma forma latina indica que naquela posição esteve uma desinência (normalmente -m para os substantivos e adjectivos, -t para as formas verbais) que caiu muito cedo em latim vulgar e da qual não guardam memória as línguas românicas.

    Exemplificação: AMA:RE>amar PIRA->pera

    À esquerda dos parênteses angulares estão as formas latinas e à sua direita as formas portuguesas resultantes. No primeiro caso, a palavra latina tem [a] longo na sílaba tónica e, no segundo, um [i] breve. Estas vogais, na mente dos falantes são, respectivamente, /a:/ e /i/, ao passo que nas suas bocas são [a:] e [i].



    Assimilação

    Por assimilação, entende-se a modificação de um som por influência do som vizinho que com ele passa a partilhar traços articulatórios (i.e. torna-o foneticamente parecido ou igual a ele). Esta é uma mudança sintagmática, assim chamada por ocorrer entre elementos de uma cadeia sintagmática (sons articulados sucessivamente na pronúncia das palavras). A assimilação de um som pode verificar-se por influência do som anterior (será uma assimilação progressiva), do som seguinte (uma assimilação regressiva), por influência simultânea dos sons anterior e seguinte (assimilação dupla) e por influência de um som não contíguo (assimilação à distância). Os contextos fonéticos (i.e. palavras concretas onde ocorrem as mudanças fonéticas) mais propícios à assimilação são os nasais, os anteriores e os intervocálicos.

    Contextos nasais: - Uma vogal vizinha de [m] e [n], sons que são consoantes nasais, tem tendência para deixar de ser vogal oral e passar a ser vogal nasal. Isto ocorre universalmente na história das línguas e, no caso do português, verificou-se na passagem do latim hispânico para o romance galego-português (séculos VI-VII), talvez por influência das línguas celtas que na Península se chegaram a falar. As vogais que antecediam o [n] passaram a ser vogais nasais (ex: PONTE->p[õ]te, LU:NA->l[ũ]a, NON>n[o~]), pelo que se diz que foram nasalisadas por assimilação regressiva. Na época nossa contemporânea, observam-se nasalizações, já de sentido progressivo, sempre que os falantes pronunciam, na primeira sílaba da forma muito, um ditongo nasal e, na primeira sílaba de mesa, uma vogal nasal (esta última nasalização progressiva apenas ocorre dialectalmente, mas a primeira é geral em português europeu, brasileiro e africano, pelo que deve ser bastante antiga, mas não anterior ao século XVI, já que Camões rimava muito com fruito).

    Contextos anteriores ou palatais: - Outras assimilações podem dar-se junto de vogal anterior, tradicionalmente chamada palatal [i] ou [e], ou junto de semivogal anterior, ou palatal, [j]. Estas mudanças chamam-se palatalizações e podem também ser regressivas ou progressivas. Em latim vulgar, a língua falada no Império Romano do Ocidente entre os séculos III a.C. e V d.C., ter-se-á iniciado, no século I da era Cristã, uma palatalização regressiva que afectou as consoantes não contínuas, [-cont], tradicionalmente chamadas oclusivas, [k] e [t], antes de som anterior. Nos contextos [ke], [ki], [kj] e [tj] as consoantes evoluíram para uma sequência com iode (a semivogal anterior) [tj] e mais tarde, só na România Ocidental, para a africada dental [ts], forma antepassada daquelas consoantes que hoje em português se escrevem <c, ç,> ou então <z> (este último num contexto especial, intervocálico, que possibilitou a evolução [ts]> [dz]). Assim, temos CENTU->[tj]ento>[ts]ento>cento, FACERE>fa[tj]ere>fa[ts]er>fa[dz]er>fazer, CISTA->[tj]esta>[ts]esta>cesta, FACIE->fa[tj]e>fa[ts]e>face. Mais antiga, foi a evolução de [tj]: FORTIA->for[ts]a>força.

    Outras palatalizações regressivas, desencadeadas no latim vulgar da mesma época pela presença da semivogal anterior [j], afectaram consoantes contínuas (ou fricativas), líquidas e nasais:

    CASEU->queijo, VINEA->vinha, FILIU->filho.

    Mais tardias, foram as palatalizações regressivas típicas do romance galego-português, ocorridas pelo século VI, que modificaram a articulação das consoantes não contínuas, ou oclusivas, [p], [k] e [t], antes da líquida [l]; esta evoluiu para a semivogal anterior [j] e, a partir daí, palatalizou em africada [tS] a consoante precedente, a qual, a seu tempo, simplificou na consoante contínua anterior [S], sempre escrita com <ch>: PLORA:R(E)>[tS]orar>chorar,CLAMA:R(E)>[tS]amar> chamar, FLAGRA:R(E)>[tS]eirar>cheirar.

    Mas este tipo de assimilação também pode ser progressivo, o que se vê igualmente no latim, mas já só na Hispânia, pelo que terá ocorrido mais adentro da era Cristã: CAPSA->ca[j]sa>caixa, COXA- ou seja ['koksa]>co[i]sa>coixa>coxa, ACUC(U)LA->agu[j]la>agulha.

    Contextos intervocálicos: - Aqui já se observa a assimilação dupla. Por assimilição dupla entende-se aquele tipo de influência simultânea que as vogais exercem sobre uma consoante que ocorra entre elas na cadeia sintagmática. Este contexto, chamado intervocálico e simbolizado VCV (vogal+consoante+vogal), é extremamente debilitante para a consoante, a qual ora é fricatizada, se for uma consoante oclusiva (segundo uma terminologia mais moderna, passa de não contínua a contínua), ora é sonorizada se for surda (passa de não vozeada a vozeada), ora, se for já de si mais instável (uma contínua, uma líquida ou uma nasal), pode deixar totalmente de ser articulada (fenómeno que tem o nome de assimilação total). Esta é a tendência universal da mudança e, em galego-português, pelo século VII, ocorreu uma assimilação dupla que muito caracteriza esta língua medieval de origem latina (este romance). Com efeito, só em galego-português é que o [l] simples intervocálico latino deixou de ser articulado e só em galego-português (e gascão) é que o [n] simples, no mesmo contexto, deixou também de ser articulado:

    PALA->paa>pá, DOLO:RE->door>dor, BONU->bõo>bom, ANELLU->ãelo>elo

    (Repare-se que a assimilação dupla de [n] simples intervocálico foi precedida de uma assimilação regressiva, em que a mesma consoante nasalizou a vogal anterior; note-se também que o [l_G] de anel ainda persiste porque tem origem numa líquida latina geminada [ll])

    Outras assimilações duplas, anteriores a estas, afectaram consoantes do latim vulgar a partir do início da era Cristã, mas raramente culminaram no respectivo desaparecimento porque foram travadas por factores sistemáticos, neste caso, fonológicos (ver Fonologia Histórica do Português). Entre os séculos I e V d. C., uma assimilação dupla provocou, na România Ocidental, aquilo a que tradicionalmente se chama sonorização, ou seja, vozeamento das consoantes não vozeadas intervocálicas. As vozeadas intervocálicas também foram atingidas por este processo de assimilação dupla, tendo começado por passar a consoantes contínuas, e acabando duas delas por deixarem de ser articuladas. Da mesma forma, as geminadas sofreram simplificação. O português conservou o resultado deste latim vulgar já evoluído:


    APICULA->abelha MUTU->mudo LACU->lago


    FABA->fava NUA->nua STRI:GA->estria


    CIPPU->cepo GUTTA->gota PECCA:RE>pecar


    ABBA:TE>abade ADDUCERE>aduzerarc


    O facto de o mesmo tipo de assimilação ter ocorrido entre vogal e consoante líquida /r/ conduz a uma reflexão sobre o estatuto particular das consoantes líquidas que, em certos aspectos, se aproximam dos segmentos vocálicos. Exemplos: PATRE->padre, MA:TRE->madre, LACRIMA>lágrima.



    Dissimilação

    Por dissimilação entende-se a modificação de um som por influência de um som vizinho, articulatoriamente próximo que, com ele, e por sua influência, deixa de partilhar traços articulatórios (i.e. torna-se foneticamente diferente). Esta é também, tal como a assimilação; uma mudança sintagmática, que envolve elementos da mesma cadeia sintagmática (i.e. sons da mesma palavra), mas é muito menos regular, ocorrendo apenas esporadicamente, pelo que é difícil também calcular uma data precisa para a sua ocorrência.

    Os sons que preferentemente sofrem dissimilação são os vocálicos, orais e nasais, e os consonânticos que constituam líquidas ou nasais.

    Dissimilação entre vogais:

    LOCUSTA->lagosta ROTUNDA->redonda

    VENTA:NA->ventãa>venta CAMPA:NA->campãa>campa

    Dissimilação entre consoantes:

    MEMORA:RE>nembrar>lembrar ANIMA->alma LOCA:LE->logar>lugar



    Metátese

    Tal como a dissimilação, a metátese, que é a transposição de sons dentro de uma mesma cadeia sintagmática, é irregular, de difícil datação e muito frequentemente envolve consoantes líquidas, aquelas que menos estabilidade têm. Também pode envolver semivogais postónicas que, por metátese, passam a ocorrer junto da vogal tónica. O padrão silábico parece aqui funcionar como um rastilho para este tipo de mudança.

    Metátese de semivogais: O latim vulgar sofreu em época bastante recuada, uma vez que a generalidade das línguas românicas a testemunha, a metátese de semivogal anterior nos sufixos -A:RIU>airo, -A:RIA>aira. Em português, as formas herdeiras desses sufixos revelam ainda uma assimilação para -eiro, -eira, que deverá ter ocorrido em latim hispânico, já que em castelhano as formas paralelas são -ero, -era.

    DIA:RIA->jeira PRIMA:RIU->primeiro

    Metátese de consoantes: Como se disse, são sobretudo as consoantes líquidas [l] e [r] que sofrem o processo da metátese. É uma tendência universal que pode testemunhar-se pelo destino de uma forma latina ARBORE-, a qual em português não deu origem a metátese (árvore), mas em italiano e castelhano provocou duas diferentes soluções de metátese envolvendo as mesmas consoantes, respectivamente, alberoit e árbolcast. Para exemplificar metáteses com líquidas portuguesas, podem observar-se as formas FLO:RE->frolmedieval ou TENEBRAS>teevras>trevas



    Epêntese

    Este é um fenómeno contrário ao da assimilação total, uma vez que consiste na adição de sons no interior da cadeia sintagmática. Tutelado pela estrutura da sílaba, que tende frequentemente para o padrão universal CV (consoante+vogal), o fenómeno da epêntese consonântica reestruturou notoriamente as sílabas do português medieval que continham o hiato (encontro de duas vogais) -i~o, -i~a e que, a partir dos séculos XIV-XV, passaram a terminar em -inho, -inha, com epêntese da consoante nasal [J]:

    VI:NU->vi~o>vinho GALLI:NA->gali~a>galinha

    Quando diz respeito à inserção de vogais, a epêntese tem o nome mais particular de anaptixe, e observa-se frequentemente no português do Brasil, que reestruturou sílabas com grupos consonânticos, sílabas CCV, em sucessões de sílabas obedecendo ao padrão universal CVCV:

    opção>opição ritmo>ritimo pneu>pineu~peneu

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    Fonologia histórica

    Introdução

    Tal como nas leis fonéticas, mas agora independentemente do contexto fonético, pode haver regularidade na evolução dos sistemas fonológicos das línguas, mas, também neste caso, desde que se considere apenas uma secção de tempo na história de uma comunidade precisa. Considerando o latim vulgar da România Ocidental, todo o seu vocalismo acentuado e parte do seu consonantismo sofreram mutações ao evoluírem para os romances ocidentais. Da mesma forma, mas séculos mais tarde, o português medieval viu o seu vocalismo átono final reduzir-se no caminho para o português clássico, e o vocalismo átono pretónico deste último teve uma ulterior evolução, já a meio da época Moderna.

    Símbolos

    1. A mudança ocorrida entre duas formas separadas pelo tempo indica-se inscrevendo entre elas o parêntese angular >.

    2. As formas latinas, para imediato reconhecimento, escrevem-se em caracteres maiúsculos.

    3. Quando uma vogal acentuada latina é longa, a sua notação vem seguida do sinal : e, quando é breve, não é assinalada.

    4. Recorre-se aos parênteses rectos para incluir, no seu interior, uma letra, ou letras que interessa considerar pelo seu valor fonético. Se estiver em causa o seu valor fonológico, ou seja, a entidade abstracta a que correspondem no sistema de uma língua, já se recorre às barras oblíquas.

    5. O hífen no final de uma forma latina indica que naquela posição esteve uma desinência (normalmente -m para os substantivos e adjectivos, -t para as formas verbais) que caiu muito cedo em latim vulgar e da qual não guardam memória as línguas românicas.

    Exemplificação: AMA:RE>amar PIRA->pera

    À esquerda dos parênteses angulares estão as formas latinas e à sua direita as formas portuguesas resultantes. No primeiro caso, a palavra latina tem [a] longo na sílaba tónica e, no segundo, um [i] breve. Estas vogais, na mente dos falantes são, respectivamente, /a:/ e /i/, ao passo que nas suas bocas são [a:] e [i].


    Evolução do vocalismo tónico latino

    A partir do início da era Cristã, nas múltiplas situações de bilinguismo a que a expansão do Império Romano obrigava, o contacto linguístico forçou o sistema fonológico do latim vulgar a evoluir. Ao nível do vocalismo acentuado, deu-se uma notável redução das oposições fonológicas, deixando o sistema de conter dez diferentes segmentos vocálicos para passar a conter apenas sete. O rastilho para esta mudança consistiu numa modificação acústica que atingiu o acento das palavras: este deixou de se traduzir num aumento da frequência da vibração das cordas vocais (acento melódico, de altura ou tonal) para passar a resultar do aumento da intensidade dessa vibração (acento de intensidade). Ou seja, as vogais acentuadas deixaram de ser mais altas (de uma altura acústica, entenda-se) do que as átonas, e passaram a ser mais intensas. Esta mudança acústica veio provocar a alteração de todo o sistema vocálico tónico, desaparecendo a oposição fonológica entre vogais longas e breves, até aí possível, mas logo tornada impossível por o acento de intensidade alongar necessariamente a quantidade das vogais nele envolvidas. (i.e. apenas podia cair em vogais longas).

    Como resultado, a quantidade vocálica foi substituída pelo timbre enquanto traço pertinente na distinção de segmentos vocálicos: à excepção do que se passou com /a/ longo e /a/ breve, vogais que se fundiram num único /a/, as antigas vogais longas tenderam para manter o seu timbre e as antigas vogais breves para sofrer abertura tímbrica. Falando em termos de altura articulatória, as antigas vogais breves sofreram, à excepção do /a/, abaixamento de um grau, tornando-se mais baixas do que eram anteriormente, enquanto que as antigas vogais longas mantiveram a respectiva altura. O português manteve, no caso das vogais tónicas, o mesmo sistema fonológico.


    Vogais longas tónicas Vogais breves tónicas
    DI:CO>digo, com /i/ acentuad PIRA->pera, com /e/ acentuado
    NUU->nu, com /u/ acentuado LUTU->lodo, com /o/ acentuado
    ACE:TU->azedo, com /e/ acentuado PETRA->pedra, com /E/ acentuado
    FORMO:SU->formoso, com /o/ acentuado ROTA->roda, com /O/ acentuado
    MA:TRE->madre, com /a/ acentuado CADO>caio, com /a/ acentuado

    Fundiram-se em resultados únicos os antigos /u/ breve e /o/ longo, os antigos /i/ breve e /e/ longo, os antigos /a/ breve e /a/ longo. Desaparecem, assim, três oposições fonológicas, pelo que o sistema latino antigo de dez vogais acentuadas é rendido por um de sete.

    Não se tratando de mudança condicionada pelo contexto (ela ocorre em todas as formas da língua latina em que estas vogais ocupem a posição acentuada), presenciamos aqui uma mudança fonológica e já não fonética, livre de restrições associativas com sons vizinhos (restrições sintagmáticas), mas sujeita a restrições opositivas com sons alternativos (restrições paradigmáticas).


    Evolução das consoantes latinas oclusivas intervocálicas

    Ao nível da fonética histórica do latim vulgar, observa-se que, por assimilação dupla, as consoantes oclusivas (não contínuas) intervocálicas do latim vulgar sofreram lenição (i.e. enfraquecimento), passando as geminadas a simples, as não vozeadas a vozeadas e as vozeadas a contínuas, podendo estas, depois, chegar a desaparecer, num processo que decorreu entre os séculos I e V da era Cristã (ver Fonética Histórica do Português - Contextos intervocálicos). O ímpeto assimilatório que desencadeou esta evolução latina, se não fora travado, acabaria num resultado único, que seria a assimilação total. Mas foi refreado por restrições do sistema (restrições paradigmáticas) que impediram as vogais de fazer desaparecer totalmente algumas consoantes que entre elas se encontravam (recorde-se que o contexto para este tipo de assimilação é o intervocálico). Assim, observaram-se diferentes graus de assimilação possíveis, mantendo-se quase intacta a sequência inicial de oposições fonológicas:





    APICULA->abelha MUTU->mudo LACU->lago
    FABA->fava NUA->nua STRI:GA->estria
    CIPPU->cepo GUTTA->gota PECCA:RE>pecar
    ABBA:TE>abade ADDUCERE>aduzerarc


    Evolução do vocalismo átono do português europeu

    O português europeu distingue-se das variantes brasileira e africanas desta língua por apresentar em estado avançado uma redução do vocalismo átono, quer final (i.e. em final de palavra), quer pretónico (i.e., em posição átona anterior à ocorrência da vogal tónica). Esta redução chegou às variantes não europeias no que às átonas finais diz respeito, e o português do Brasil, por exemplo, na maioria dos seus dialectos, revela a elevação /e/>/i/, /o/>/u/, dizendo os brasileiros pont[i] para "ponte" e coc[u] para "coco". Já não elevam contudo, o /a/ final para /6/, tal como não o fazem os falantes africanos de português. Esta elevação em posição final terá sido muito recuada na história para ter chegado a conhecer uma difusão tão extensa. Mais recente, por menos difundida, foi a elevação das átonas pretónicas, que só parcialmente é conhecida das variantes africanas e que é desconhecida no Brasil. Em posição pretónica, o português europeu tem as seguintes elevações:

    /e/ > /@/
    /o / > /u/
    /a/ > /6/

    Posição acentuada Posição pretónica
    pele, com [E] tónico pelar, com [@] pretónico
    sebo, com [e] tónico seboso, com [@] pretónico
    posso, com [O] tónico possível, com [u] pretónico
    roxo, com [o] tónico arroxeado, com [u] pretónico
    casa, com [a] tónico casario, com [6] pretónico


    Este é um fenómeno do qual só há testemunhos directos a partir do século XVII, altura em que os textos escritos por mãos pouco alfabetizadas muito hesitam na colocação do grafema <e>, por exemplo, usando-o até no interior de grupos consonânticos, o que prova que o "e mudo" já figurava no sistema vocálico átono. Exemplo: <teres> para <três>.

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    Morfologia histórica

    Introdução

    Do ponto de vista morfossintáctico, o latim era, ao contrário das línguas românicas, uma língua sintética, na qual as diferentes categorias semânticas e sintácticas se exprimiam preferencialmente pela flexão, nominal e verbal. As informações de género, número, pessoa, tempo, modo, aspecto, as categorias de sujeito, objecto, complemento eram traduzidas pelas terminações das formas verbais e dos nomes, adjectivos e pronomes. Em virtude de evoluções fonéticas que afectaram consoantes finais como o /-m/ e o /-t/, e em virtude de evoluções fonológicas que modificaram a pertinência da quantidade vocálica enquanto traço distintivo, toda a arquitectura sintética da morfossintaxe latina deu lugar a aspectos analíticos que afloram sobretudo ao nível da ordem de palavras e no enriquecimento de classes gramaticais como a das preposições. No português, manteve-se contudo maioritariamente sintética (flexional, portanto) a morfologia verbal, bem como o subsistema dos pronomes pessoais, o qual pode ser considerado bastante arcaizante.

    Um outro factor de mudança, que veio actuar nas categorias nominais e verbais portuguesas entre a Idade Média a época actual, foi a analogia. A analogia é um tipo de mudança universal (comum a todas as línguas do mundo) que não tem motivação fonética nem fonológica, tem sim uma motivação gramatical. A linguística neo-gramática do século XIX classificava a analogia enquanto mudança "psicológica", oposta à mudança fonética, que seria já "mecânica". Esta era caracterizada pela sua regularidade, se bem que tivesse como resultado criar paradigmas (grupos de formas flexionadas da mesma palavra) irregulares; aquela via-se como imprevisível e irregular, mas o seu resultado tendia a criar paradigmas já regulares. Hoje a analogia é descrita em termos mais gramaticais, e faz-se decorrer a sua inevitabilidade daquela característica de todas as línguas do mundo que é a sua forte estruturação interna. Fruto da analogia, muitos substantivos, adjectivos, pronomes e verbos portugueses são hoje mais equilibrados na sua estrutura flexional do que o foram no passado, sendo também, por isso mesmo, mais simples de aprender.


    Da gramática sintética latina à analítica românica. O caso do desaparecimento das declinações

    Edwin Williams, na sua gramática Do latim ao português, menciona o caos da rica flexão latina no seu caminho para as línguas românicas (referindo o caso particular do português) numa formulação breve mas explícita:

    Paradigmas nominais
    (substantivos, adjectivos e pronomes flexionados em caso, género e número)

    Pouco restou das declinações do latim clássico em latim vulgar. A quarta e a quinta declinações, o gênero neutro e todos os casos, excepto o nominativo e o acusativo, desapareceram. Com o desaparecimento do nominativo em português, a distinção casual terminou. Apenas a flexão de número permaneceu. A forma oriunda do acusativo latino passou a exercer a função de sujeito, de objeto de um verbo e de objeto de uma preposição. (Williams, 1975: p. 123)


    Quanto ao género, as formas nominais portuguesas podem ser femininas ou masculinas. Assim era também em latim vulgar, mas essa língua evoluíra de uma outra que tinha também o género neutro. As formas neutras dos substantivos e adjectivos latinos foram absorvidas quer pelas masculinas quer pelas femininas, e o português não tem hoje expressão gramatical para a categoria semântica neutra. Quanto ao caso, as formas nominais latinas também caminharam de um estado de flexão casual, para o seu quase total desaparecimento em português. O factor original desta mudança morfológica foi, como está dito acima, de natureza fonética e fonológica. As terminações de muitos casos e de diferentes géneros tornaram-se idênticas pela queda de consoantes finais (apócope) e a prosódia nivelou, pelo deparecimento do acento melódico (ver Fonologia Histórica do Português - Evolução do Vocalismo Tónico Latino), os radicais de muitas formas anteriormente distintas em termos de quantidade vocálica.

    Os casos nominativo, genitivo, dativo, acusativo e ablativo eram categorias a que pertenciam formas com distintas funções na frase, e essa função sintáctica aflorava numa terminação (desinência de caso) específica:

    Nominativo: caso da função sintáctica de sujeito

    Genitivo: caso possessivo e de outras relações entre formas nominais

    Dativo: caso do complemento indirecto

    Acusativo: caso do complemento directo

    Ablativo: sem função específica, sendo sobretudo o caso do objecto de uma preposição (herdeiro da fusão de três casos indo-europeus, o instrumental, o locativo e o ablativo, inicialmente um caso de separação). As terminações da primeira, segunda e terceira conjugações latinas destoam, em variedade, dos seus sucedâneos portugueses:

    1ª declinação latina


    Singular


    Plural

    Nominativo


    -a


    -ae

    Genitivo


    -ae


    -a:rum

    Dativo


    -ae


    -i:s

    Acusativo


    -a-m


    -a:s

    Ablativo


    -a


    -i:s


    A esta declinação pertenciam nomes quase todos eles femininos (excepções : NAUTA "navegante", AGRICOLA "lavrador", ambos nomes masculinos). Para ela convergiram os nomes neutros plurais da segunda declinação (ex: ARMA>arma, UO:TA>boda, LIGNA>lenha, FOLIA>folha), dela desapareceram todos os casos, excepto o acusativo (que perdeu, no singular, o seu -m final) e, ao tempo do português medieval, tínhamos o seguinte estado herdado das terminações da primeira declinação latina:

    português singular


    português plural

    -a


    -as

    Da segunda declinação, restam em português algumas formas singulares com o -s final característico do nominativo latino. Mas são casos isolados, quase todos eles de nomes próprios (Deus, Jesus, Carlos, Domingos, Mateus). De resto, esta declinação, com a qual se fundiu a quarta, também se reduziu ao acusativo plural e singular (sem -m final e com abaixamento de -u para -o):

    2ª declinação latina


    Singular


    Plural

    Nominativo


    -us (masc) / -um (neut)


    -i: (masc) / -a (neut)

    Genitivo


    -i:


    -o:rum

    Dativo


    -o:


    -i:s

    Acusativo


    -u-m


    -o:s (masc) / -a (neut)

    Ablativo


    -o:


    -i:s


    português singular


    português plural

    -o


    -os

    Estas terminações das formas nominais portuguesas, oriundas da primeira e segunda declinações latinas, distribuíram-se num sistema em que as herdeiras da primeira declinação caracterizam substantivos, adjectivos e pronomes portugueses femininos, descendendo da segunda declinação as formas portuguesas masculinas. Quanto ao vocabulário português que descende da terceira declinação latina (que tinha nomes de tema em consoante e de tema em -i, e com os quais se fundiram os da quinta declinação), aí tanto encontramos formas nominais femininas como masculinas:

    3ª Declinação


    Singular


    Plural

    Nominativo


    -s (tema em consoante)

    -is (tema em -i) / -e (neut)


    -e:s (tema em consoante)

    -ia (tema em -I) / -a (neut)

    Genitivo


    -is


    -um

    Dativo


    -i:


    -ibus

    Acusativo


    -e-m


    -e:s (tema em consoante)

    -ia (tema em -i) / -a (neut)

    Ablativo


    -e / -i:


    -ibus


    português singular


    português plural

    -l / -r / -z / -e


    -es

    Com ascendência nesta declinação, em português temos ponte, que é feminino, árvore, também feminino, mas leite já é masculino, assim como mar. Passando para outras línguas românicas, assistimos à flutuação, quanto ao género, das formas cognatas (i. e. com a mesma origem remota): em francês temos os masculinos le pont, le lait, l'arbre e o feminino la mer. Em castelhano há el puente, el mar (mas Mar Bella, como arcaísmo), el árbol e, já como feminino, la leche.


    A mudança por analogia. O caso dos particípios portugueses em -udo

    Um aspecto exemplar da morfologia verbal portuguesa demonstra o poder da analogia na regularização de paradigmas.

    As três conjugações portuguesas, de tema em a (1ª), em e (2ª) e em i (3ª), provêm de quatro latinas. A 2ª e a 3ª latinas fundiram-se: por exemplo, RESPONDE:RE e VENDERE eram, em latim, de conjugações diferentes, da 2ª e da 3ª, respectivamente, mas em português têm descendentes da mesma conjugação (responder e vender, da 2ª conjugação). Isto sucedeu em todas as línguas românicas faladas na Península Ibérica, pelo que o fenómeno de fusão terá sido bem antigo, não fazendo parte, propriamente, da história do português. As formas do particípo passado dos verbos de tema em e, com aquela genealogia dupla, tinham, no português da Idade Média, a vogal /u/ em posição acentuada, ou seja, tinham terminação em -udo (exs: teúdo, perdudo, conhoçudo, creçudo usavam-se em vez de tido, perdido, conhecido e crescido). A variação entre -udo e -ido só começou a aparecer em textos de finais do século XIV, mas foi tão radical que não há hoje qualquer verbo da 2ª conjugação que tenha nas suas formas do particípio passado vestígios daquela terminação arcaica. A causa desta mudança foi a analogia com os particípios da 3ª conjugação, de tema em i, que realmente têm, com justificação etimológica, os particípios passados em -ido < -ITUM. E o fenómeno não é certamente alheio ao da passagem de verbos da 2ª para a 3ª conjugação ao longo da história do português:

    Verbos da 2ª conjugação na Idade Média


    Resultado da passagem para a 3ª conjugação

    caer


    cair

    cinger


    cingir

    confonder


    confundir

    correger


    corrigir

    enquerer


    inquirir

    esparger


    aspergir

    finger


    fingir

    tinger


    tingir

    traer


    trair

    ***

    Os sintagmas verbais, fortemente estruturados, são, com efeito, o campo preferencial destas nivelações analógicas. Continuam e continuarão activas as nivelações, o que se vê, por exemplo, na tendência indomável que têm as formas portuguesas do perfeito de todas as conjugações, na segunda pessoa do singular, para incluir um -s final, marca geralmente presente nos paradigmas verbais portugueses na expressão desse significado gramatical de pessoa e número: tu tocaste>tu tocastes, tu vendeste>tu vendestes, tu fugiste>tu fugistes.

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    Sintaxe histórica (estruturalista)

    Estudos tradicionais em sintaxe histórica do português

    Em geral, os trabalhos tradicionais sobre sintaxe histórica do português são textos didácticos que se encontram no último capítulo das gramáticas históricas. Faltando, nas épocas em que foram escritos, teorias suficientemente explicativas dos fenómenos envolvidos na estrutura da frase, são textos em que pouco mais se encontra do que a enumeração das unidades lexicais que desde a Idade Média (ou mesmo desde a língua latina) foram perdendo ou ganhando propriedades sintácticas. São trabalhos incontornáveis no avanço do conhecimento em sintaxe histórica, dada a compilação de fenómenos arcaicos que apresentam, mas o seu discurso, de pura descrição individual das propriedades sintácticas das palavras, tem agora de ser complexificado à luz dos novos conceitos que nos veio oferecer a teoria generativa.

    Uma lista dos principais textos sobre sintaxe histórica, quer tradicional, quer estruturalista, inclui obrigatoriamente os elaborados por Augusto Epiphanio da Silva Dias, Manuel Said Ali, Joseph Huber e Rosa Virgínia Mattos e Silva.


    Bibliografia

    DIAS, A. Epiphanio da Silva, 1918, Syntaxe Historica Portugueza. Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1970 (5ª ed.).

    ALI, Manuel Said, 1921-23, Gramática Histórica da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Edições Melhoramentos, 1971 (7ª edição).

    HUBER, Joseph, 1933, Altportugiesisches Elementarbuch. Trad. port. de Maria Manuela Gouveia Delille: Gramática do Portugês Antigo. Lisboa, Gulbenkian, 1986.

    SILVA, Rosa Virgínia Mattos e, 1989, Estruturas Trecentistas. Para uma Gramática do Portugês Arcaico. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

    SILVA, Rosa Virgínia Mattos e, 1994, O Português Arcaico: Morfologia e Sintaxe. São Paulo - Baía, Contexto - Editora da Universidade Federal da Bahia.

    Querendo destacar as mudanças sintácticas em que este grupo de autores insistiu, não se pode ignorar o tema das concordâncias (sobretudo em número) entre sujeito e predicado e o da evolução funcional dos verbos ser, estar, ter, haver e ir. No mais, e nos três primeiros autores, sobretudo, o que se encontra é a apresentação dos conceitos centrais da sintaxe (sujeito, predicado, complementos, adjuntos, concordância, regência, valência, ordem de palavras) ilustrados com frases retiradas não do português contemporâneo, mas de textos escritos em épocas passadas.


    Sintaxe estruturalista do português arcaico
    O trabalho de Rosa Virgínia Mattos e Silva

    Rosa Virgínia Mattos e Silva, nas suas Estruturas trecentistas, e depois em O Português arcaico: morfologia e sintaxe, apresenta uma morfo-sintaxe e uma sintaxe estruturalistas do português do século XIV (mas com aplicação ao período que vai dos séculos XIII a XV) contrastadas, sempre que necessário, com as da língua latina e da portuguesa contemporânea. Uma súmula do seu segundo livro (no que diz respeito ao tema da sintaxe -"Sequências verbais" e "A frase", pp. 61-132) dá-nos uma ideia de como se distinguiam as frases portuguesas medievais das actuais. Utiliza-se aqui uma terminologia devedora quer do léxico da gramática tradicional quer, sobretudo, do do estruturalismo. Os exemplos são quase todos eles da fonte que a autora utiliza preferencialmente: a mais antiga versão portuguesa dos quatro livros dos Diálogos de São Gregório, um manuscrito do século XIV, de proveniência desconhecida, mas seguramente copiado em ambiente monacal na região norte de Portugal. Sempre que a fonte dos exemplos utilizados não é citada, estão em causa trechos desses mesmos Diálogos de São Gregório.


    I - TEMAS “À ESPERA DE AUTOR”

    Ao longo do seu texto, Rosa Virgínia Mattos e Silva vai apontando os temas de sintaxe medieval do português cujo estudo mais aprofundado lhe parece necessário (que se encontram “à espera de autor”, como diz). São os seguintes:

    1. As formas tónicas do pronome pessoal (ele, ela, eles, elas) aparecem esporadicamente em posição de objecto directo. Mattoso Câmara Jr. julgou ver nessas estruturas um recurso enfático mas “nenhuma pesquisa sistemática sobre o tópico no período arcaico investigou esta questão” (Silva, 1994: 103). Veja-se o exemplo deste fenómeno que a autora encontra nos Diálogos de São Gregório: e o ermitan, pois vio ele e seus companheiros e falou com eles muitas cousas, perguntou-os.

    2. As orações completivas (aquelas que desempenham a mesma função que um SN pode cumprir, i. e. sujeito, complemento, predicativo) no português arcaico parecem ilustrar arbitrariedade no uso da preposição. Uma completiva com o verbo no infinitivo e uma completiva introduzida por que parecem admitir facultativamente o recurso a uma preposição, mas não há certezas sobre o fenómeno. Ex: e pera se saber guardar do contrário que he falar mal e desaposto, a par de gram trabalho nos he de decer.

    3. Ainda nas orações completivas do português arcaico, falta “uma pesquisa acurada” sobre a selecção, por parte do verbo regente (da oração subordinante, portanto), de uma subordinada com verbo em tempo finito, em tempo inifinitivo pessoal e infinitivo impessoal (id., ibid.:111).

    4. A ordem dos constituintes na frase é o outro tema da sintaxe do português arcaico que Rosa Virgínia Mattos e Silva julga insuficientemente contemplado por parte da investigação. Alinha, entretanto, sete conclusões que se lhe afiguram relativamente seguras:

    a) Predomina a marcação do sujeito no verbo.

    b) A ordem Sujeito Verbo Objecto (SVO) predomina sempre que o sujeito é um SN ou uma forma pronominal; nestes casos, mesmo que o sujeito seja posposto ao verbo, a contiguidade continua a existir.

    c) Os factores que favorecem a posposição do sujeito são, ora um verbo intransitivo, ora um complemento circunstancial a iniciar a frase.

    d) Há ênfase estilística na colocação do complemento em início de frase (taaes custumes aviam eles).

    e) É rara a posposição do verbo para depois do sujeito e do complemento, a não ser que o complemento seja realizado pela forma relativa que, seguida do sujeito (vertudes que os homens en este mundo fezeron).

    f) A inversão entre o sujeito e o verbo é favorecida pela presença de um pronome interrogativo no início da frase interrogativa.

    5. Por último, as construções perifrásticas, estruturadas à custa de verbos auxiliares (no texto de Rosa Virgínia recebem o nome de sequências verbais), estão apenas vagamente descritas quando está em causa o contexto medieval português: "Se na análise sincrônica do português de hoje a questão do auxiliar está longe de ser consensual, mais longe de ser resolvida estará no tratamento do período arcaico do português, sobretudo por ter sido pouco explorado, por isso insuficientemente conhecido" (id. ibid.:62). As sequências verbais duvidosas são as do quadro inserido mais abaixo e a principal questão que envolvem é a de os verbos da esquerda de cada sequência (ser, haver, ter, jazer, estar, andar, ir) serem já verbos auxiliares, pertencendo, portanto, à mesma oração dos particípios, gerúndios e infinitivos que precedem, ou não. Neste segundo caso, seriam ainda verbos semanticamente plenos, e não meros suportes gramaticais das marcas de tempo, modo, aspecto, pessoa e número:

    ser, haver/ter + particípio passado
    Verbos intransitivos arcaicos como nascer, morrer, falecer, passar, chegar, ir, correr combinavam o seu particípio passado com ser para expressão do aspecto perfectivo (o meu filho he morto, aquele meu amigo era passado
    deste mundo). É consensual que estas sejam construções com auxiliar, mas a questão põe-se quanto ao desaparecimento de ser e à sua substituição por haver e ter nessa função a partir do século XV. Parece que o fenómeno se foi instalando à medida que estes dois últimos verbos, quando combinados com particípios de verbos transitivos, deixaram de exprimir posse. Com efeito, eles eram ainda plenos semanticamente enquanto os particípios que precediam concordavam com o complemento directo; até ao século XVI eram possíveis construções como os serviços que avian feitos a seu padre, non ousaram d'entrar na camara por a defesa que el-rei tinha posta. A partir do momento (inícios do século XV) em que começou a haver variação entre concordância e não concordância do particípio do verbo transitivo com o seu complemento, haver e ter foram-se gramaticalizando enquanto suportes de flexão e puderam vir a substituir ser nas estruturas compostas com verbo intransitivo. Mas, conclui Rosa Virgínia, "a questão dos tempos compostos[…] precisa de que se analisem mais dados do período arcaico para que possam ser considerados ou reconsiderados aspectos desse problema ainda não resolvidos" (id., ibid.:65).

    ser, jazer, estar, andar, ir + gerúndio
    O momento em que estas construções com gerúndio passaram a ser compostas é difícil de decidir. O sentido etimológico de cada um daqueles verbos mantém-se abertamente em algumas frases arcaicas, mas há casos em que parece estar-se já perante uma combinação de auxiliar com gerúndio:

    SEDE:RE ("estar sentado") > seer > ser

    aqueles que hi siiam comendo, achou monges que siiam lendo (não se pode decidir se o sentido era "estavam sentados a ler/a comer" ou apenas "estam a comer/a ler").

    JACE:RE ("estar deitado") > jazer

    ele jazia tremendo e ferindo a terra ("estava deitado a tremer" ou simplesmente "estava a tremer"?).

    STARE ("estar de pé") > estar

    estando a hũa fẽẽstra rogando Nosso Senhor ("rogando de pé" ou "estando a rogar"?).

    AMBITA:RE ("deslocar-se com os pés") > andar

    andava per muitas cidades e per muitas vilas e per muitos castelos e pelas ruas e pelas casas dos homẽs dizendo muitas santas paravoas ("dizia deambulando" ou "andava a dizer"?).

    I:RE ("deslocar-se numa direcção determinada") > ir

    mais Roma ir-s'a destroindo pouco e pouco (a interpretação de ir como auxiliar, exprimindo aspecto durativo, é aqui a única possível).


    II - PREDICADO

    Quanto ao Predicado, a autora adopta uma classificação sintáctico-semântica, distinguindo os predicados existenciais dos atributivos, transitivos e intransitivos (id., ibid.:72-86)

    Predicados existenciais

    O verbo seer deixou de ser usado no período arcaico em favor de haver (na cidade d’Aconha foi hũũ bispo de gram santidade / Non avia padres santos). O verbo existir só a partir do século XVI passou a desempenhar função existencial. O verbo ter veio a ganhar mais tarde, mas só no português do Brasil, essa mesma função.

    Predicados atributivos

    Nos equativos, semelhar desapareceu do léxico. Nos descritivos e locativos, estar e andar são os que mantêm, ainda hoje, o seu emprego medieval; jazer tornou-se arcaizante e seer passou a ser usado só para atributos permanentes e não transitórios, como acontecia na Idade Média. Sobre os verbos seer e estar, convém transcrever a motivação histórica para o contraste entre os dois verbos, tal como a expõe Rosa Virgínia Mattos e Silva:

    “Na sua história pregressa, estar tem como étimo stare ‘estar de pé’. Nessa acepção está documentado no português até fins do século XIV, enquanto ser tem uma história complexa de convergência dos verbos latinos sede:re, ‘estar sentado’ - nessa acepção ainda em uso, pelo menos até fins do século XIV – e esse ‘ser’. Esse fato permite inferir que o traço [+transitório] é o próprio, desde a sua origem, a estar, enquanto em ser confluem o [+transitório] de sede:re e o [+permanente] de esse. Não é sem razão histórica, portanto, que, definida a oposição ser/estar no português, foi estar o verbo escolhido para expressar a transitoriedade” (id., ibid.:77).

    Quanto aos atributivos possessivos, haver tornou-se arcaizante, mas a sua variação com ter já não era livre na Idade Média, porque dependia do tipo de posse. A razão, mais uma vez, remontava à língua latina:

    “A história semântica pregressa dessas formas sugere o curso dessa mudança: no latim o verbo básico para a expressão de posse é habe:re e, segundo Gaffiot […], a sua acepção primeira é ‘ter em sua posse’, ‘guardar’ e, subseqüentemente, considera, entre os ‘usos figurados – ‘ter na mão’, ‘obter’; enquanto ter […] tem como acepção básica ‘ter algo na mão’, ‘obter’. Já havia no latim, portanto, a intersecção semântica entre habe:re/tene:re na referência a algo concreto, ‘ter na mão’. Na história documentada do português, como esboçamos, os seus continuadores já aparecem em variação desde momento recuado na expressão desse tipo de posse, aqui designado por “bens materiais adquiríveis”. isto é, a posse alienável. Daí se difunde ter para os outros contextos, enquanto (h)aver se especializa como verbo existencial, descartando o etimológico ser. No correr da história, como já vimos, com (h)aver existencial entrará ter em concorrência, já até predominando em variantes faladas do português [refere-se ao Brasil], tendendo, mais uma vez, a descartar haver: no período arcaico, das possessivas e, no atual, das existenciais (id., ibid.:79).

    Predicados intransitivos

    Os verdadeiros intransitivos do português arcaico (aqueles em que o sujeito é a origem mas não o agente do processo expresso pelo verbo) distinguem-se dos actuais apenas por integrarem itens cuja fonética se tornou arcaizante (como berregar ou asseviar). Os intransitivos neutros, ou ergativos, em que o sujeito não é nem origem nem agente (é antes tema do verbo), podiam e podem ocorrer com o pronome se com valor puramente expletivo, continuando a função da voz média latina que se expressava nos verbos depoentes (veeron a hũũ logar / veo-se pera casa).

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    Predicados transitivos

    A selecção de complementos preposicionados e não preposicionados é o principal ponto de afastamento entre os verbos transitivos medievais e os seus descendentes nossos contemporâneos. Na Idade Média havia variação entre gostar e gostar de, creer, creer a e creer em, entre duvidar e duvidar de. Verbos que seleccionavam preposição deixaram de o fazer passado o português arcaico, e vice-versa, para além de ter podido mudar a forma prepositiva seleccionada (confiar de foi, por exemplo, substituído por confiar em).

    Dentro do próprio português arcaico podia variar, em relação a verbos como rogar e perguntar, a regência de pronome pessoal em função de complemento directo. No texto da Demanda do Santo Graal, há exemplos dessa variação (apresentados inicialmente por Manuel Said Ali): perguntaron-no que demandava / perguntou-lhe que faria; rogaron-no que lhe dissesse / rogou-lhe que lhe perdoasse.


    III - SUJEITO

    O que individualiza o sujeito da oração arcaica em relação ao português de fases posteriores é um conjunto de três fenómenos:

    - a expressão do sujeito indeterminado que, para além das estratégias actuais, incluía mais uma, mediante recurso à forma pronominal homen

    ex: de cincoenta anos adeante vai ja homen folgando e assessegando e quedando das tentações;

    - a inexistência de se impessoal com verbos intransitivos (usava-se homen, precisamente); o se impessoal apenas ocorria com verbos transitivos, funcionando como partícula apassivante

    ex: todalas cousas que son e foron e an de seer, assi aquelas que se farán come aquelas que se nunca farán pero se poderian fazer.

    - a variação na concordância entre o sujeito e o verbo, obedecendo a factores que podiam ser sintácticos ou semânticos:

    Factores semânticos

    Um sujeito composto, interpretável como uma unidade, podia ocorrer com o verbo no singular (sua mãcibia e sua fremosura o tornava en pouco siso e en vaydade – exemplo do século XV, em Vidas de santos de um manuscrito alcobacense, editadas por Ivo Castro et alii). Paralelamente, um sujeito colectivo podia concordar com o plural do verbo (muita gente que primeiramente oraran os idolos).

    Factores sintácticos

    Um sujeito distante do núcleo do predicado, bem como um sujeito posposto ao verbo, são exemplos de como a ordem de palavras da frase arcaica podia perturbar a concordância entre sujeito e verbo (em na boca daquella besta eran grandes chamas de fogo que sayam pela garganta della e queimava as almas / e aos brados veo o bispo e todos aquelles).


    IV - COMPLEMENTOS E ADJUNTOS PREPOSICIONAIS

    Sobre a função das preposições na sintaxe latina e na das línguas românicas em geral, Rosa Virgínia Mattos e Silva escreve o seguinte parágrafo:

    “De partículas acessórias para a expressão de ajuntos adverbiais que já estavam marcados pela seleção do caso morfológico ablativo ou acusativo, as preposições vão ser utilizadas, introduzindo um SN – já perdida […] a morfologia flexional nominal para a expressão dos casos ou funções sintáticas – para marcar, com exceção do SU e do OD, todas as outras funções sintáticas: complementos verbais e nominais, também os adjuntos adverbiais e adnominais. Tornam-se, portanto, as preposições elementos básicos na estrutura sintática da frase do português, como de todas as línguas românicas. São a utilização da PREP, como demarcador de função sintática, e também a ordem dos constituintes no interior da frase, mais rígida que no latim, os recursos sintáticos que funcionarão nessas línguas em lugar da morfologia casual que era suficiente para a indicação da função sintática na frase latina” (id., ibid.:90-91).

    As preposições que introduziam complementos de verbos transitivos no português arcaico eram as seguintes: de, a, en, per, con e pera (oriundas das latinas de, ad, in, per, cum e per+ad). As que introduziam adjuntos adnominais e adverbiais também são identificadas por Rosa Virgínia: de, para os adjuntos adnominais, exprimindo posse e proveniência e, por isso mesmo, frequentíssima em qualquer fase do português, mesmo na arcaica; para os adjuntos adverbiais, a autora segue a sua classificação semântica:
    Origem


    Direcção


    Percurso
    de

    nasceu do li~agen mais fram e mais livre e mais rico que avia a

    veo a Roma per

    foi prelado per muitos anos
    des

    aqueste des sa
    mancebia ouve
    coraçon de velho pera

    enviaron-no pera
    Roma por

    Constancio foi grande
    d’aa de fora polos miragres que feze
    ata, atẽẽ, atẽẽs

    falando ata a manhã

    Associação / Exclusão


    Situação


    Adequação

    con

    dava pan con sa mão


    en

    aquel que en religion vivia


    segundo

    era mui fremoso segundo a fremosura do mundo

    sen

    passou sen embargo


    ante (exemplo de situações anterior e posterior)

    e ante seis dias que morresse




    fora, foras

    isto seya outrossi das forras, fora ende que casen hu poderẽ (Foro Real, séc. XIV)


    dentro en (exemplo de situações interior e exterior)

    era dentro na cidade




    tirado

    mandou que se fossen, tirado ende hũũ menĩho pequeno


    sobre (exemplo de situações superior e inferior)

    a candea que sê sobelo candeeiro




    salvo

    hi non avia outras
    cousas, salvo aquelas que veemos


    antre (exemplo de situação intermediária)

    o menĩho foi juiz alvitro antre ambos





    V - PRONOMINAIS

    Na terminologia estruturalista, que Rosa Virgínia Mattos e Silva adopta, englobam-se na designação «pronominais» quer os pronomes, quer os advérbios. Dividem-se em pronominais pessoais (os pronomes pessoais, tónicos e átonos) e pronominais adverbiais (os advérbios de lugar, tempo e modo).

    Sobre os pronomes pessoais do português arcaico, a autora refere sobretudo o seu alomorfismo e as aglutinações em que as formas átonas se podiam combinar. Algumas variantes converteram-se em arcaísmos, como el para ele, mi para me, lhi para lhe, mh'o para mo, ch'o e xo para to e lhillo para lho.

    Nos pronominais adverbiais, sujeitos a uma classificação semântica que os divide em locativos, temporais e modais, interessa sobretudo registar os que a autora identifica como arcaísmos:

    Locativos

    Deíticos e anafóricos

    arcaísmo



    forma sobrevivente

    acá

    e dá acá todalas cousas deste homen que tomasti




    acó

    ei ti mando eno nome de Jesu Cristo que guardes esta entrada e non leixes acó entrar homen que do mundo seja




    alá

    e pera saberes que ti digo verdade, afirmando que
    foi no ceo, sabe que me deron alá don pera poder falar todolos lenguagẽẽs




    aló

    veer a cidade de Jherusalém celestial nos seus cidadãos que conosco viven e fazen ja obras daqueles que aló som




    aquende




    aquém

    alende




    além

    alhur, algur




    algures

    nenhur, nenlhur

    - Hu comestes?

    - Nenlhur, padre


    nenhures

    hy, hi, i

    e algũũs as veen por seu proveito, ca melhoran i sa vida




    en, ende

    non queiras tomar trabalho en ir a Roma hu el he, ca muito cansarias e gram nojo receberias ende


    disso, nisso

    Interrogativos

    arcaísmo



    forma sobrevivente

    hu, u

    e preguntô-os hu era o abade


    onde

    Temporais

    arcaísmo



    forma sobrevivente

    ora

    esto, Pedro, que ti eu ora quero contar


    agora

    Modais

    arcaísmo



    forma sobrevivente

    outrossi

    enton o abade deitou-se aos pees do monge Libertino
    e o monge Libertino outrossi deitou-se ante os pees de seu abade


    na mesma maneira

    er, ar

    e assi non acharon nengũũ que podessen fazer bispo, nen er ficou gente nenhũa na cidade de que fosse bispo


    na mesma maneira


    VI - CONEXÃO DE FRASES

    As estruturas que Rosa Virgínia Mattos e Silva aborda sob este título são, sobretudo, as da subordinação e da coordenação.

    Subordinação - Em primeiro lugar, trata a autora das subordinadas que na terminologia estruturalista se chamam completivas (aquelas em que a oração subordinada pode ser sujeito, complemento ou nome predicativo, ou seja, em que tem as mesmas funções sintáticas que um SN pode desempenhar).

    O que constitui contraste entre o português arcaico e o contemporâneo resume-se, neste tema, à variação (fraca) entre que integrante e ca (ca começa a desaparecer logo no século XV) e à existência de conectores, ou conjunções, com valor temporal (hu) e de qualidade (quegendo/quejando), que também se perderam:

    ca integrante


    hu integrante


    quegendo integrante

    di-lhe ca eu bevo
    a poçonha



    non sabemos hu
    nós somos


    ouvi e aprende
    quegendo foi dentro
    en sa alma


    Quanto às subordinadas relativas, que desempenham a função de um adjunto adnominal oracional e são introduzidas por um pronome relativo (aquele que recupera anaforicamente um antecedente), também aqui há formas que se tornaram arcaizantes: outra vez ca, hu e ainda cujo, que na Idade Média, além de determinante, podia ser núcleo de um SN:

    hu relativo


    cujo relativo (em função substantiva)

    levaron-no per aquel logar hu ardia
    a cidade


    e o nobre Venancio cuja era a vila


    Também o emprego de qual relativo se modificou: por um lado, podia dispensar o determinante, se bem que o par o qual também pudesse ocorrer (tan gram prazer qual non poderia recudir de nen hũa cousa temporal); por outro lado, podia surgir num emprego enfaticamente anafórico e demonstrativo, seguido do mesmo nominal que já o antecedia (e vio a ssombra da carne que levava na boca, a qual sombra parecia a elle que era duas - exemplo do século XV, do Livro de Esopo).

    Quanto à ordem de palavras, nestas subordinadas ela podia deixar de ser directa pela extrapolação do relativo, assim separado do seu antecedente pela introdução de um ou mais constituintes (e por esso diss'el que aqueles juizos de Deus pronunciou el que sairan ja da sa boca).

    Depois das subordinadas completivas e das relativas, considera Rosa Virgínia as subordinadas circunstanciais, cuja função sintáctica é de adjunto adverbial oracional: são, semanticamente falando, as subordinadas temporais, causais, finais, modais, consecutivas, condicionais e concessivas. Os conectores que as introduziam no período arcaico puderam, mais uma vez, cair em desuso. Vejam-se os temporais desaparecidos (alguns apenas por mudança fonética): des que, des quando, d'hu, ante que, mentre, ementre, dementre, dementres, domentre, sol que, toste que, depós, depós que, empós que, ata que. Dos conectores finais, desapareceu por tal que (enviou 6 fraires ao reino de Marrocos por tal que pregassen a santa (Huber, 1986:491); dos modais, en guisa que e en tal que (caeu con el e logo lhi quebrou a perna en guisa que o osso se partiu; quis dar a seu filho molher manĩha en tal que fosse acabada a promissa que Nosso Senhor prometera). A forma guisa também integra um conector arcaizante, de valor consecutivo, en tal guisa que. Do elenco dos restantes conectores exclusivos do português arcaico (ora fonética, ora lexicalmente), considerem-se ainda:

    conectores condicionais arcaicos


    conectores concessivos arcaicos


    conectores finais arcaicos (em construção infinitiva)


    conectores causais arcaicos (em construção infinitiva)
    si

    e ssi este for
    morto sen
    semmel, o maior filio agia o reino (séc. XIII, Testamento de Afonso II) macar

    eu cuido que me non possades
    valer ja, macar
    vus queirades
    (Huber, 1986:501) pera

    non dizes tu
    esto senon pera non fazeres o que te homen roga per

    ca todas aquelas vezes que nós
    per muito cuidar saimos fora de nós caemos en tan grandes cuidados
    pero

    e tanto creceu a agua derredor da eigreja e pero as portas da eigreja estavan abertas
    e a agua
    corresse
    derredor, non entrou dentro na eigreja




    Coordenação - As orações coordenadas que, ao contrário das subordinadas, não são dependentes, iniciavam-se na Idade Média por algumas conjunções coordenativas que não mais se empregaram:

    Coordenação disjuntiva


    coordenação opositiva


    coordenação conclusiva


    coordenação explicativa

    vel

    que romeu en Salas vel a
    santos seus altares hũa oferenda desse (Cancioneiro medieval) pero

    de e por amor de Deus dade-lhi
    que cómia e que
    beva, pero sabe Deus que morto he ergo

    e pois o Padre e o Filho e o
    Spiritu Santo son hũũ Deus e hũa sustança. Ergo porque o filho de Deus disse que verriã eles o Espiritu Santo? ca

    padre, aqueste
    por que me tu rogas vejo eu
    que non he monje, ca o seu coraçon junto anda con
    os enmiigos do linhagen d'Adam

  20. O seguinte Membro agradeceu a mercenário por essa útil mensagem:

    profiler (2nd September 2009)

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    Sintaxe histórica (generativa)

    Apresentação

    A estrutura das frases (sintaxe) e a sua evolução do latim para o português tem sido um dos temas menos estudados na nossa gramática histórica. Aliás, em linguística histórica geral, os estudos sobre mudança sintáctica foram, durante décadas, os que menos interesse despertaram junto dos investigadores. Este facto tem natureza epistemológica: os modelos teóricos segundo os quais se interpretaram as línguas naturais durante o século XIX e até meados do século XX (sobretudo os modelos da neogramática, da geografia linguística e do estruturalismo) construíram as suas descrições de forma indutiva, a partir de amostras de língua falada e de escrita efectivamente produzida. Daí que esses modelos tenham avançado depressa nos domínios da fonética e da fonologia, visto que as línguas têm um número finito de unidades fonéticas e fonológicas. Estas, uma vez inventariadas, são interrogadas quanto às respectivas propriedades, as quais podem passar a ser clara e completamente descritas.

    O que se passa no domínio da sintaxe é um fenómeno diferente. Acontece que o conhecimento sintáctico que os falantes têm interiorizado não está inequivocamente espelhado nos enunciados por eles produzidos, quer quando falam, quer quando escrevem, problema este que resulta agravado quando se pensa em textos de épocas passadas. Após se construir uma teoria preocupada com a capacidade de os falantes criarem frases, com a sua imaginação sintáctica (o que só começou a acontecer a partir de 1957, com os trabalhos de Noam Chomsky em teoria generativa), é que foi possível abordar a sintaxe nos seus aspectos históricos. É por essa razão que aqui se vai privilegiar a perspectiva generativa na apresentação da sintaxe histórica portuguesa. A proposta de Chomsky é a de que há um conhecimento linguístico universal, inato, cuja área central é a sintaxe. Em formulação mais recente (a Teoria dos Princípios e Parâmetros), o generativismo concebe a sintaxe como incluindo princípios, comuns a todas as línguas do mundo, e parâmetros, responsáveis pelas grandes variações. Os falantes, que à nascença já dominam os abstractos princípios da sintaxe, vão aprendendo a sua língua materna à medida que compreendem quais são os valores próprios dos parâmetros dessa língua e quais são as propriedades sintácticas que caracterizam as unidades do léxico, as palavras. Esta teoria torna-se incontornável ao se tratar da sintaxe das línguas, quer sincrónica, quer diacronicamente, até porque, até hoje, não surgiu uma alternativa com uma adequação explicativa superior.


    Rudimentos de sintaxe generativa

    Segundo o generativismo, para se conhecer a sintaxe de uma língua é preciso formular sucessivas hipóteses sobre as operações mentais envolvidas na derivação, ou geração, das suas frases. Na base dessa derivação está um conjunto de escolhas lexicais. No final da mesma, admite-se que as estruturas frásicas, então já criadas, se bifurcam em dois tipos de expressão, ou representação, uma ao nível dos sons (Representação Fonética) e outra ao nível do significado (Forma Lógica), o que dá conta do objecto observável da teoria sintáctica que é o das frases ditas com sentido, as únicas que podem ser compreendidas.

    Quando se diz ou se ouve uma frase, dizem-se ou ouvem-se sucessivas palavras. Essa sucessão de palavras é vista pela gramática generativa como o resultado superficial (chamado Sintaxe Visível) de uma articulação dinâmica entre estruturas, algumas das quais são apenas abstractas, não tendo correspondência no léxico das línguas. Para representar graficamente essa fabricação mental das orações e todo o conjunto de estruturas hierarquizadas que ela inclui, sujeitas a princípios e parâmetros que presidem à sua interdependência, a Gramática Generativa concebe uma árvore invertida. Os seus ramos significam vinculações entre estruturas do léxico, com sua categoria morfológica (determinantes, substantivos, adjectivos, advérbios, pronomes, verbos), e as estruturas sintácticas que vão progressivamente integrando, formando constituintes cada vez mais complexos até se chegar à Sintaxe Visível. As unidades do léxico estão na ponta de cada ramo dessa árvore e as suas propriedades sintácticas vinculam-nas aos pontos de ramificação (os nós) para onde os ramos convergem. Cada ramificação apenas pode juntar pares de ramos (diz-se que se trata de ramificação binária) e nunca pode estar isolada (como os ramos vivos, que não podem estar soltos da sua armação botânica). Chama-se projecção a cada um desses nós e as projecções (que podem ser intermédias ou máximas, conforme o seu lugar hierárquico) identificam-se por rótulos que são a abreviatura, em letras maiúsculas, da respectiva designação inglesa. Por exemplo, DP (determiner phrase) é um constituinte que tem como núcleo um determinante D e como seu complemento um nome N. Um constituinte como este homem é uma projecção do núcleo este (que em português ocorre canonicamente à esquerda - é um dos parâmetros do português, ter o núcleo à esquerda), combinado com o complemento homem. A estrutura desta projecção representa-se assim

    Entre os diferentes constituintes há, como se disse, relações dinâmicas. Há a possibilidade de o constituinte que se projecta remotamente num determinado lugar hierárquico da frase se deslocar (o termo técnico é Mover) para outro lugar hierárquico. O Movimento dos constituintes obedece a princípios universais (por exemplo, tem de ter sempre um sentido ascendente) e as suas motivações serão invariavelmente morfológicas, pelo menos segundo o quadro teórico do Minimalismo, que é a versão mais recentemente difundida da Teoria dos Princípios e Parâmetros. Isto significa que todos os falantes concebem as palavras do léxico que aprenderam como indissociáveis das suas características morfológicas (dos seus Traços), traços esses que têm de se enquadrar na frase dentro de um contexto coerente, ou seja têm de ser verificados perante os de um par com o qual concordam. Aquela palavra homem é aprendida, por quem fala português, como sendo do género masculino, do número singular e da categoria N (nome) e todos esses seus traços estão presentes quando os falantes portugueses a combinam com outras palavras para formar frases: só a combinam com pares que exijam um nome como complemento, e que tenham também o singular e o masculino como suas características morfológicas. O demonstrativo este é uma das palavras portuguesas que apresenta todos esses traços.

    Esta projecção DP é uma das muitas identificadas pela gramática generativa. Algumas das restantes, não todas, por se tratar por vezes de conceitos muito abstractos, são as seguintes:

    AP (adjectival phrase) - com um adjectivo como núcleo, seguido do seu complemento, como na expressão cheio de esperanças (cheio é o núcleo).

    PP (prepositional phrase) - com uma preposição no núcleo, ex: de esperanças (de é o núcleo).

    NP (noun phrase) - com um nome no núcleo, ex: artista de cinema (artista é o núcleo).

    VP (verb phrase) - com um verbo lexical (i.e. um verbo que não seja auxiliar) no núcleo e tendo por complemento um argumento temático (i.e.uma entidade que é concebida como sofrendo o efeito de uma acção). Como exemplo, prende o gado (prende é o núcleo e o gado é o complemento que corresponde à ideia de argumento temático ).


    Entende-se bem, perante a sumária apresentação aqui feita, que será preciso dominar um vastíssimo vocabulário técnico, os conceitos de uma teoria complexa e um número aceitável de línguas diferentes para se poder entender todo o alcance da teoria generativa e da sua adequação aos problemas sintácticos das línguas. Mas mesmo sem embarcar na aprendizagem desta teoria, capta-se uma sua grande vantagem prática, que é a de os fenómenos sintácticos não serem vistos isoladamente. A teoria generativa busca explicações únicas para características frásicas diversas, tentando ascender, um dia, ao conhecimento sintáctico comum aos falantes de todas as línguas do mundo - a Gramática Universal.

    A sintaxe histórica do português, feita no âmbito da teoria Generativa, vai ser aqui exemplificada por um trabalho de Ana Maria Martins, enquadrado na Teoria dos Princípios e Parâmetros (versão Minimalista): Clíticos na História do Português, vols I-II. Lisboa, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 1994 (dissertação de doutoramento).

    A autora, para explicar um fenómeno sintáctico que teve modificações importantes na história do português entre a época medieval e a actualidade (e que é constantemente referido quando se compara o português europeu com o português do Brasil), adoptou uma metodologia comparativa observando simultaneamente o comportamento actual de diferentes línguas românicas (português, galego, espanhol, catalão, francês e italiano). O fenómeno em causa é a posição na frase dos pronomes pessoais átonos (me, te, lhe, o, a, nos, vos, lhes, os, as), também chamados pronomes clíticos ou apenas clíticos. Estes pronomes são hoje pós-verbais (ou enclíticos) em português europeu e galego, ao contrário do que se passa nas outras línguas românicas, em que são pré-verbais (ou proclíticos), desde que se pense apenas em determinadas orações. É preciso que essas orações não sejam subordinadas, não sejam coordenadas disjuntivas, nem contenham aquelas partículas que fazem com que o pronome átono se anteponha ao verbo, como é o caso da forma adverbial de negação não. Demonstrando estas posições enclíticas e proclíticas em português:

    ÊNCLISE


    PRÓCLISE

    Orações simples


    Com advérbio de negação

    Vejo-me ao espelho




    Não me vejo ao espelho

    Orações principais


    Orações subordinadas

    Vou-te pedir [que sejas breve]




    Vou-te pedir [que me digas uma coisa]

    Orações coordenadas não-disjuntivas


    Orações coordenadas disjuntivas

    Ouço-te em silêncio mas quero-te responder

    Ouço-te em silêncio e vou-te compreendendo


    Ou te ouço em silêncio, ou tu te enfureces


    Só nos exemplos da coluna da esquerda há contraste entre português e galego, por um lado, e as outras línguas românicas (veja-se a demonstração feita pela autora citada):

    ÊNCLISE




    PRÓCLISE

    (por) Deste-lhe o livro?




    (esp) Le diste el libro?

    (gal) Décheslle o livro?


    (cat) Li has donat el llibre?






    (fr) Lui as-tu donné le livre?






    (it) Gli hai dato il libro?


    Para Ana Maria Martins, este fenómeno tem de ser compreendido num enquadramento mais extenso, que inclua outros contrastes entre os dois grupos de línguas românicas. Por um lado, quando em português e galego se quer responder afirmativamente a uma pergunta, dando-lhe a resposta mínima, usa-se o verbo; nas outras línguas, usa-se a forma correspondente a sim:

    ÊNCLISE

    (e resposta mínima afirmativa)




    PRÓCLISE

    (e resposta mínima afirmativa)

    (por) Deste-lhe o livro?

    Dei




    (esp) Le diste el libro?



    (gal) Décheslle o livro?

    Dei




    (cat) Li has donat el llibre?

    Si




    (fr) Lui as-tu donné le livre?

    Oui






    (it) Gli hai dato il libro?




    Por outro lado, também o português (e, em certa medida, o galego) se caracterizam por poderem elidir, em certas construções, o complemento do verbo e alguns adjuntos (o nome técnico dado pelos generativistas a este fenómeno é o de construção de VP nulo). Retomando os exemplos acima utilizados, mas substituindo as respostas mínimas afirmativas por respostas alargadas, vêem-se sublinhados em espanhol, catalão, francês e italiano os complementos verbais que em português e galego se podem omitir regularmente (não têm, nestas duas línguas, uma ocorrência obrigatória):

    ÊNCLISE

    (e VP nulo)


    PRÓCLISE

    (e impedimento de VP nulo)

    (por) Deste-lhe o livro?

    Sim, dei




    (esp) Le diste el libro?

    Sí, se lo di

    (gal) Décheslle o livro?

    Si, dei


    (cat) Li has donat el llibre?

    Si, l' hi he donat






    (fr) Lui as-tu donné le livre?

    Oui, je le lui ai donné






    (it) Gli hai dato il libro?

    Sì, gliel ho dato


    Surge então a hipótese de haver uma mesma característica sintáctica (o termo técnico é uma mesma propriedade gramatical), partilhada pelo português e o galego, mas não pelas outras línguas românicas, que explique a coocorrência de ênclise, resposta mínima afirmativa verbal e VP nulo. A proposta de Ana Maria Martins é a de português e galego terem a sua hierarquia de constituintes frásicos dominada por uma categoria abstracta (Sigma, ou S, em abreviatura) que se caracteriza por atrair o verbo para a sua posição sintáctica (diz-se, por isso, ter traços-V fortes), ao contrário das outras línguas românicas cujo Sigma terá traços-V fracos, não atraindo as formas verbais. Esta "atracção" consiste naquilo a que se chamou acima movimento para verificação de traços. Na resposta mínima afirmativa, o verbo português e o galego movem-se para essa posição Sigma, enquanto nas outras línguas o que para aí se move são as formas não verbais sí, si, oui e sì. Nas construções com pronome clítico, o verbo do portugês e do galego, sendo movido para Sigma, que é uma categoria dominante, portanto alta na hierarquia (o que se manifesta em posições à esquerda na sintaxe visível), passa a preceder o pronome. No fundo, nas formas deste-lhe do português e décheslle do galego, é o verbo que precede o pronome e não o pronome que lhe sucede. Nas construções com VP nulo, um constituinte formado pelo verbo e por um seu complemento não realizado (a isto se chama uma categoria vazia) move-se, no seu conjunto, para a mesma categoria Sigma, o que não acontece em espanhol, catalão, francês ou italiano.

    Do ponto de vista histórico, estas propriedades gramaticais diversas apresentadas pelas línguas românicas assumem o carácter de um arcaísmo da língua portuguesa e da língua galega e uma inovação das restantes. Quer em latim, quer em espanhol medieval e clássico se podia encontrar a tal categoria Sigma com traços-V fortes que sobrevive em português e galego, como o demonstra Ana Maria Martins:

    - Em latim a resposta mínima afirmativa era dada com o verbo: Fuistin liber? Fui (Foste um homem livre? Fui), lê-se em Plauto.

    - Em espanhol dos séculos XII-XIII, a mesma resposta mínima afirmativa verbal pode ler-se no Cid: Veindes? …-Vengo. Em textos espanhóis do século XV, ainda se encontram exemplos como, Quiéreslo saber? -Quiero.

    Ao longo da história do português, se bem que a categoria Sigma se tenha mantido sempre com traços-V fortes, houve uma evolução não linear dos pronomes átonos na sua posição em relação ao verbo. Entre o século XIII e o século XVI foi-se tornando cada vez mais frequente a ocorrência dos pronomes átonos antes do verbo (posição proclítica, portanto), resultando daí uma ordem de palavras que Ana Maria Martins interpreta como marcada enfaticamente. Aquela ordem Verbo-Pronome átono pôde, ao longo da Idade Média, ser invertida para transmitir a ideia de ênfase. Acontece, contudo, que pelo século XVI a ordem marcada se tornou tão frequente que a noção de que ela era excepcional se perdeu. No século seguinte terá sido substituída por aquela que a gramática do português oferece como ordem natural: primeiro o verbo, depois o pronome átono. Ou seja, não havendo a indicação de que o pronome a anteceder o verbo era uma construção enfática, por ter deixado de ser minoritária, tomou-se essa construção como sendo simples. Mas isso contrariava a gramática do português que, com o seu verbo a ocorrer em Sigma, o tinha regularmente antes do pronome átono. Daí que tenha desaparecido a construção proclítica.

    Os números apresentados por Ana Maria Martins (op. cit. p. 56), encontrados em documentação notarial portuguesa dos séculos XIII a XVI, demonstram o caminho percorrido na perda da pertinência enfática da ordem pronome átono (ou clítico) seguido do verbo:




    séc XIII


    séc XIV


    séc XV


    séc XVI

    Clítico-Verbo



    6,7%


    27%


    84,4%


    100%

    Verbo-Clítico



    93,3%


    63%


    15,6%


    0%



    Atestações em documentos destas sucessivas épocas,

    uns do Noroeste de Portugal (simbolizados NO)

    e outros da região de Lisboa (simbolizados Lx)

    Id. pp.60-76:



    Século XIII

    (NO, 1273) é Móór eanes obligouse a dar os filhus a outorga

    (Lx, 1290) presente fuy e esta procuraçõ cõ mha mãão propria escreuy e rapeyaa e emmendeya na oytaua regra no logo que diz Achelas

    (NO, 1277) e o dito Steuã díaz u octorgou

    Século XIV

    (NO, 1321) E doulhy comprido poder pera partir e sortes deytar e traijtos meter

    (NO, 1397) E o dicto Juiz lhe Mandou per tres ou quatro vezes Ao dicto Nicollaao stevez Almuxriffj que veesse com os dictos Autores

    Século XV

    (NO, 1408) e façouos della doaçom Antre vjuos

    (NO, 1414) e xe lho obrigem A lhas defender e lhas Asy darem desëbargadas

    Século XVI

    (Lx, 1532) e prometeo e se obrigou de lhe manter esta vëda

    (Lx, 1544 e desta maneira os ha ella dita senhora dona guyomar por Reçebidos em sy

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    profiler (2nd September 2009)

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