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    Padrão Romances Sobrenaturais





    Última edição por mercenário; 26th March 2009 às 23:45

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    As seguintes perguntas e respostas foram gravadas quando os Inquisidores de IX se reuniram no Grande Palácio com a candidata a Embaixadora na Corte de Lorde Leto:

    INQUISIDOR: Você indicou que deseja falar conosco sobre as motivações de Lorde Leto. Fale.
    HWI NOREE: Sua Análise Formal não é satisfatória para as questões que vou abordar.
    INQUISIDOR: Que questões?
    HWI NOREE: Eu me pergunto o que motivaria Lorde Leto a aceitar essa horrenda transformação, esse corpo de verme, essa perda de sua humanidade. Vocês afirmam meramente que ele fez isso em troca do poder e de uma vida longa.
    INQUISIDOR: E isso não é bastante?
    HWI NOREE: Pergunte a si mesmo se aceitaria tal pagamento por tão mesquinho retorno.
    INQUISIDOR: De sua infinita sabedoria, diga-nos então por que Leto escolheu transformar-se em verme.
    HWI NOREE: Será que alguém aqui duvida de sua habilidade para prever o futuro?
    INQUISIDOR: Ora! Isso não é pagamento suficiente pela transformação?
    HWI NOREE: Mas ele já tinha a habilidade da presciência, assim como seu pai, antes dele. Não! Sugiro que ele fez tal escolha desesperada porque viu em nosso futuro alguma coisa que tal sacrifício evitaria.
    INQUISIDOR: E o que era essa coisa peculiar que ele viu em nosso futuro?
    HWI NOREE: Eu não sei, mas me proponho descobrir.
    INQUISIDOR: Você faz o tirano parecer um abnegado servo do povo!
    HWI NOREE: Não é essa a característica proeminente da família Atreides?
    INQUISIDOR: Assim a história oficial nos faz acreditar.
    HWI NOREE: A História Oral o afirma.
    INQUISIDOR: Que outras boas características você atribuiria ao Verme Tirano?
    HWI NOREE: Boa característica, senhor?
    INQUISIDOR: Característica de personalidade, então.
    HWI NOREE: Meu tio Malky freqüentemente dizia que Lorde Leto era dado a ter grande tolerância para com companheiros selecionados.
    INQUISIDOR: Enquanto outros companheiros ele executa sem qualquer razão aparente.
    HWI NOREE: Creio que existem razões e meu tio Malky deduziu algumas delas.
    INQUISIDOR: Forneça-nos algumas dessas deduções.
    HWI NOREE: Ameaças desajeitadas à sua pessoa.
    INQUISIDOR: Ameaças desajeitadas!
    HWI NOREE: Ele não tolera a pretensão. Lembre-se da execução dos historiadores e a destruição de seus trabalhos.
    INQUISIDOR: Ele não deseja que a verdade seja conhecida!
    HWI NOREE: Ele contou ao meu tio Malky que eles mentiram a respeito do passado. E observe isso! Quem conheceria o passado melhor do que ele? Nós todos conhecemos o assunto de suas introspecções.
    INQUISIDOR: Que prova temos de que seus ancestrais vivem todos em sua mente?
    HWI NOREE: Eu não vou entrar nessa discussão inútil. Meramente direi que acredito na evidência fornecida pela crença de meu tio Malky, e em suas razões para tal crença.
    INQUISIDOR: Nós lemos os relatórios de seu tio e os interpretamos de outro modo. Malky era muito amigo do Verme.
    HWI NOREE: Meu tio o considerava o mais hábil diplomata do Império, um mestre na arte das conversações e um especialista em qualquer assunto que se possa citar.
    INQUISIDOR: E seu tio não falava na brutalidade do Verme?
    HWI NOREE: Meu tio o julgava o máximo em civilização.
    INQUISIDOR: Eu perguntei a respeito de brutalidade.
    HWI NOREE: Capaz de brutalidade, sim.
    INQUISIDOR: Seu tio o temia.
    HWI NOREE: Lorde Leto carece de inocência ou ingenuidade. Só deve ser temido quando finge tais coisas. Isso foi o que meu tio disse.
    INQUISIDOR: Essas palavras são dele, realmente.
    HWI NOREE: Mais do que isso! Malky disse: Lorde Leto deleita-se com a diversidade e o gênio surpreendente da humanidade. Ele é meu companheiro favorito.
    INQUISIDOR: Dê-nos o benefício de sua suprema sabedoria: como interpreta essas palavras de seu tio?
    HWI NOREE: Não zombe de mim!
    INQUISIDOR: Nós não zombamos. Buscamos o esclarecimento.
    HWI NOREE: Essas palavras de Malky, e muitas outras coisas que ele escreveu diretamente para mim, sugerem que Lorde Leto está sempre buscando a novidade e a originalidade, mas que é cauteloso quanto ao potencial destrutivo de tais coisas. Assim meu tio acreditava.
    INQUISIDOR: Existe mais alguma coisa que deseje acrescentar quanto a essas crenças que compartilha com seu tio?
    HWI NOREE: Não vejo qualquer razão para acrescentar coisa alguma ao que já disse. Sinto ter desperdiçado o tempo dos Inquisidores.
    INQUISIDOR: Mas você não desperdiçou nosso tempo: está confirmada como Embaixadora na Corte de Lorde Leto, o Imperador-Deus do Universo Conhecido.












    Vocês devem lembrar-se de que eu possuo internamente, ao meu alcance, cada habilidade e cada experiência conhecida em nossa história. Esse é o reservatório de energia no qual me alimento quando abordo a mentalidade da guerra. Se vocês nunca ouviram os gritos e os gemidos dos feridos e agonizantes, então não conhecem a guerra. Eu já ouvi tais gritos em tamanho número que eles me perseguem. Eu mesmo já gritei no final de uma batalha. E sofri ferimentos de todas as épocas: ferimentos jeitos com punhos, pedras e cajados. Com membros couraçados e espadas de bronze, maça e canhão. De espadas e armas laser à silenciosa asfixia da poeira atômica. De invasões biológicas que enegrecem a língua e afogam os pulmões ao esguicho rápido de chamas, ao trabalho silencioso de venenos lentos... e mais ainda que não contarei! Eu os vi e senti a todos. E àqueles que se atrevem a me perguntar por que me comporto da maneira como me comporto, eu respondo: Com minhas memórias, não posso fazer outra coisa. Não sou um covarde, e um dia já fui humano.
    — Os diários roubados

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    Na estação quente, quando os controladores do satélite meteorológico eram forçados a lidar com ventos atravessando os grandes mares, o cair da tarde freqüentemente presenciava a queda de chuva nas extremidades do Sareer. Moneo, retornando de uma de suas inspeções periódicas ao perímetro da Cidadela, foi apanhado numa dessas pancadas súbitas. A noite caiu antes que ele alcançasse o abrigo, e uma guarda das Oradoras Peixes o ajudou a retirar sua capa úmida no portal sul. Era uma mulher corpulenta, de constituição rija, com o rosto quadrado, do tipo que Leto preferia para suas guardiãs.
    — Aqueles malditos controladores do clima deviam ser obrigados a trabalhar melhor — disse ela enquanto pegava a capa.
    Moneo assentiu rapidamente com a cabeça antes de começar a subida para seus alojamentos. Todas as Oradoras Peixes conheciam a aversão que o Imperador-Deus tinha por umidade, mas nenhuma delas fazia a distinção de Moneo.
    "E o Verme que odeia a água", pensou Moneo. "O Shai-Hulud anseia por Duna."
    Em seus aposentos, Moneo enxugou-se e vestiu roupas secas antes de descer para a cripta. Não havia razão para atrair o antagonismo do Verme. Uma conversa ininterrupta com Leto era necessária agora, uma conversa franca a respeito da pendente peregrinação à Cidade Festival de Onn.
    Apoiando-se contra a parede do elevador que descia, Moneo fechou os olhos. Imediatamente a fadiga o dominou. Sabia não ter dormido o suficiente nos últimos dias, e não havia descanso à vista. Invejava a aparente liberdade de Leto quanto à necessidade do sono. Algumas horas de semi-repouso por mês pareciam o suficiente para o Imperador-Deus.
    O cheiro da cripta e a parada do elevador arrancaram Moneo de seu cochilo. Ele abriu os olhos e fitou o Imperador-Deus sobre sua carreta no centro da Grande Câmara. Moneo empertigou-se e fez a caminhada familiar até aquela terrível presença. Como era de se esperar, Leto parecia alerta. Isso, pelo menos, era um bom sinal.
    Leto ouvira o elevador se aproximando e viu Moneo despertar. O homem parecia cansado e isso era compreensível. A peregrinação a Onn estava próxima, com todas as obrigações cansativas referentes aos visitantes de fora do planeta, o ritual das Oradoras Peixes, os novos embaixadores, a mudança da Guarda Imperial, as aposentadorias e nomeações, e agora o novo ghola, Duncan Idaho, a ser encaixado na engrenagem bem lubrificada do aparato imperial. Moneo ocupava-se com um número crescente de detalhes e começava a demonstrar sua idade.
    "Deixe-me ver", pensou Leto. "Moneo fará 180 anos de idade na semana após nosso regresso de Onn."
    Um homem poderia viver muitas vezes esse tempo se consumisse a especiaria, mas ele se recusava. Leto não tinha dúvidas quanto à razão: Moneo entrara naquela condição humana peculiar em que ansiava pela morte. Agora apenas esperava para ver Siona instalada no Serviço Real, a próxima diretora da Sociedade Imperial das Oradoras Peixes.
    "Minhas huris", como Malky costumava chamá-las.
    E Moneo conhecia a intenção de Leto de unir Siona a Duncan. Era época.
    Moneo parou a dois passos do carro e olhou para Leto. Alguma coisa em seu olhar fez Leto lembrar-se do rosto de um sacerdote pagão dos tempos da Terra, em dedicada súplica num santuário familiar.
    — Senhor, passou muitas horas observando o novo Duncan — disse Moneo. — Terão os Tleilaxu alterado suas células ou sua psique?
    — Ele está imaculado.
    Um profundo suspiro fez Moneo estremecer. Não havia prazer nele.
    — Faz objeção ao seu uso como reprodutor? — indagou Leto.
    — Acho peculiar pensar nele ao mesmo tempo como ancestral e pai de meus descendentes.
    — Mas ele me dá acesso a um cruzamento de primeira geração entre uma forma humana mais antiga e os atuais produtos de meu programa de procriação controlada. Siona está afastada 21 gerações de tal cruzamento.
    — Não consigo perceber o propósito de tal coisa. Os Duncans são mais lentos e menos alertas do que qualquer um de sua guarda.
    — Não estou procurando bons resultados individuais, Moneo. Você acha que não tenho consciência da progressão geométrica ditada pelas leis que governam meu programa de procriação?
    — Já vi seu livro de estoque genético, Senhor.
    — Então sabe que mantenho registro dos recessivos e os elimino. As chaves genéticas dominantes são meu objetivo.
    — E as mutações, Senhor? — Havia uma nota de astúcia na voz de Moneo que fez com que Leto observasse o homem atentamente.
    — Não discutiremos esse assunto, Moneo.
    Leto observou Moneo recolocar sua armadura de cautela. "Como ele é extremamente sensível aos meus estados de espírito. Creio que ele possui algumas de minhas habilidades, embora elas operem no nível do inconsciente. Sua pergunta sugere que ele pode mesmo suspeitar do que conseguimos em Siona."
    Testando isso, Leto disse:
    — Parece-me evidente que não compreende o que busco conquistar com meu programa de procriação.
    Moneo pareceu animar-se.
    — Meu Senhor sabe que tento perceber suas regras.
    — As leis tendem a se tornar temporárias a longo prazo, Moneo. Não existe tal coisa como a criatividade governada por regras.
    — Mas o Senhor mesmo falou em leis que governariam seu programa de procriação.
    — O que acabei de lhe dizer, Moneo? Tentar encontrar regras para a criação é como tentar separar a mente do corpo.
    — Mas alguma coisa está evoluindo, Senhor. Eu sei por mim mesmo!
    "Ele sabe por si mesmo! Querido Moneo. Está tão perto."
    — Por que você sempre busca traduções absolutamente derivativas, Moneo?
    — Eu o ouvi falar em evolução transiormacional, Senhor. Esse é o título em seu livro sobre genética. Mas e quanto à surpresa.
    — Moneo! As regras mudam com cada surpresa.
    — Senhor, não tem em mente nenhum aperfeiçoamento do estoque humano?
    Leto olhou para ele pensando: "Se eu usar agora a palavra-chave, será que ele compreenderá?"
    — Eu sou um predador, Moneo.
    — Pred... — Moneo não chegou a terminar, sacudindo a cabeça.
    Ele sabia o significado da palavra, mas esta em si o chocara. Estaria o Imperador-Deus brincando?
    — Predador, Senhor?
    — O predador melhora a espécie.
    — Como pode ser, Senhor? O Senhor não nos odeia.
    — Você me desaponta, Moneo. O predador nem sempre odeia sua presa.
    — Os predadores matam, Senhor.
    — Eu mato, mas não odeio. A presa sacia a fome. A presa é boa.
    Moneo fitou o rosto de Leto em seu capuz cinzento. "Terei deixado de perceber a aproximação do Verme?", admirou-se Moneo.
    Temeroso, Moneo buscou os indícios. Não havia tremores no corpo, embaçamento no olhar ou contorcer das inúteis barbatanas.
    — De que tem fome, Senhor? — arriscou Moneo.
    — Anseio por uma humanidade verdadeiramente capaz de tomar decisões a longo prazo. Sabe qual é a chave para essa habilidade, Moneo?
    — O Senhor o disse muitas vezes. E a habilidade de mudar de opinião. Mudar de ponto de vista.
    — Mudar, sim. E você sabe o que quero dizer com longo prazo?
    — Para o Senhor, longo prazo deve significar milênios.
    — Moneo, até mesmo os meus milênios não passam de um ponto insignificante em relação ao Infinito.
    — Mas sua perspectiva deve ser diferente da minha, Senhor.
    — Em vista do Infinito, qualquer longo prazo definido se torna um curto prazo.
    — Então, verdadeiramente, não existem regras, Senhor? — A voz de Moneo transmitia um fraco indício de histeria.
    Leto sorriu para aliviar as tensões do homem.
    — Talvez uma: as decisões tomadas a curto prazo tendem a fracassar a longo prazo.
    Moneo sacudiu a cabeça, frustrado.
    — Mas Senhor, sua perspectiva é...
    — O Tempo se esgota para qualquer observador finito. Não existem sistemas fechados. Até mesmo eu apenas estico uma matriz finita.
    Num movimento brusco, Moneo afastou sua atenção da face do Imperador, olhando as distâncias sugeridas pelos corredores do mausoléu. "Eu estarei lá algum dia. O Caminho Dourado poderá continuar, mas eu terminarei." Isso não era importante, é claro. Apenas o Caminho Dourado que ele podia sentir em ininterrupta continuidade, apenas aquilo importava. Voltou a olhar para Leto, mas não para seus olhos completamente azuis. Haveria realmente um predador à espreita naquele corpo volumoso?
    — Você não compreende a função de um predador — disse Leto.
    As palavras chocaram Moneo, pois indicavam uma leitura de mente. Ele voltou seu olhar para os olhos de Leto.
    — Você sabe intelectualmente que até mesmo eu sofrerei algum tipo de morte, algum dia — disse Leto. — Mas não acredita nisso.
    — Como posso acreditar em algo que nunca testemunharei?
    Moneo nunca se sentira mais solitário e temeroso. Que estaria fazendo o Imperador-Deus? "Eu desci aqui para discutir os problemas da peregrinação — . — e para descobrir suas intenções com relação a Siona. Será que ele está brincando comigo?"
    — Vamos falar sobre Siona — disse Leto.
    "Leitura da mente outra vez!"
    — Quando irá testá-la, Senhor? — A pergunta estivera aguardando diante de sua consciência por todo o tempo, mas, agora que a enunciara, Moneo a temia.
    — Logo.
    — Perdoe-me, Senhor, mas certamente sabe o quanto temo pelo bem-estar de minha única filha.
    — Outros sobreviveram ao teste, Moneo. Você mesmo.
    Moneo engoliu em seco, relembrando como havia sido sensibilizado para o Caminho Dourado.
    — Minha mãe me preparou. Siona não tem mãe.
    — Ela tem as Oradoras Peixes. Ela tem você.
    — Acidentes acontecem, Senhor.
    Lágrimas brotaram nos olhos de Moneo.
    Leto afastou o olhar da direção dele, pensando: "Ele está dividido entre sua lealdade para comigo e seu amor por Siona. Como é tocante essa preocupação com a prole. Será que ele não vê que a humanidade inteira é minha única filha?"
    Voltando sua atenção para Moneo, Leto disse:
    — Você está certo ao observar que acidentes acontecem, mesmo em meu universo. Será que isso não lhe ensina coisa alguma?
    — Senhor, apenas desta vez não poderia — —.
    — Moneo! Certamente não está pedindo que eu delegue autoridade a uma administradora fraca.
    Moneo recuou um passo.
    — Não, Senhor. E claro que não.
    — Então confie na força de Siona.
    Moneo endireitou os ombros.
    — Eu farei o que for preciso.
    — Siona deve ser despertada para suas obrigações como uma Atreides.
    — Sim, é claro, Senhor.
    — Não é esse o nosso compromisso, Moneo?
    — Não o nego, Senhor. Quando irá apresentá-la ao novo Duncan?
    — O teste vem primeiro.
    Moneo olhou para o piso frio da cripta.
    "Ele olha para o chão com tanta freqüência", pensou Leto. "O que ele pode ver no chão? As marcas milenares da minha carreta? Ah, não. — — e nas profundezas que ele perscruta, nos remos dos mistérios e tesouros que ele espera penetrar logo.
    Uma vez mais Moneo ergueu o olhar para o rosto de Leto.
    — Eu espero que ela aprecie a companhia do Duncan.
    — Tenha certeza disso. Os Tleilaxu o trouxeram para mim em sua forma não-distorcida.
    — Isso é tranqüilizador, Senhor.
    — Sem dúvida já observou que seu genótipo é notavelmente atraente para as mulheres.
    — Essa foi minha observação, Senhor.
    — Existe algo naqueles olhos suaves e observadores, naquelas feições fortes e no cabelo negro e espesso como pêlo de cabra que positivamente derrete a psique feminina.
    — Como o Senhor diz.
    — Sabe que agora mesmo ele está com as Oradoras Peixes?
    — Eu fui informado, Senhor.
    Leto sorriu. E claro que Moneo fora informado.
    — Elas o trarão logo para sua primeira visão do Imperador-Deus.
    — Inspecionei pessoalmente a sala de audiências. Tudo está pronto, Senhor.
    — Algumas vezes acho que você deseja me enfraquecer, Moneo. Deixe alguns desses detalhes para mim.
    Moneo tentou ocultar a constrição do medo. Curvou-se e recuou.
    — Sim, Senhor. Mas há algumas coisas que eu devo fazer.
    Voltando-se, saiu apressado. Só quando já estava subindo no elevador foi que Moneo percebeu que tinha saído sem esperar a permissão.
    "Ele deve saber o quanto estou cansado. Vai me perdoar."
    Teu Senhor conhece muito bem o que se encontra em teu coração. Sua alma é o bastante, hoje, como testemunha contra você. Eu não preciso de outros depoimentos. Tu não escutas a tua alma, e sim o teu ódio e a tua raiva
    — Lorde Leto a um penitente,
    Da História Oral
    A seguinte avaliação do estado do Império no ano 3508 do reinado de Lorde Leto foi retirada do Resumo de Welbeck. O original encontra-se nos Arquivos da Ordem Bene Gesserit. Uma comparação revela que o que foi subtraído não prejudica a precisão essencial do relato.
    Em nome de nossa Sagrada Ordem, em sua inquebrantável Irmandade, este relato foi julgado confiável e digno de entrar em nossas crônicas.
    As irmãs Chenoeh e Tawsuoko retornaram em segurança de Arrakis para nos trazerem a confirmação da execução de nove historiadores que desapareceram na Cidadela durante o ano de 2116 do reinado de Lorde Leto, fato de que há muito suspeitávamos. As irmãs relatam que os nove foram deixados inconscientes e em seguida queimados em piras feitas com seus próprios trabalhos publicados. Isso corresponde exatamente às histórias que circularam através do Império naquela ocasião. Os relatos da época foram julgados como tendo se originado do próprio Leto.
    As irmãs Chenoeh e Tawsuoko trazem registros escritos do relato de uma testemunha, dizendo que, quando Lorde Leto foi procurado por outros historiadores, buscando notícias de seus companheiros, ele disse:
    "Eles foram destruídos porque mentiram pretensiosamente. Não temam que minha ira caia sobre vocês devido a erros inocentes. Eu não gosto muito de criar mártires. Os mártires tendem a provocar eventos dramáticos no curso dos assuntos humanos.
    O drama é um dos alvos da minha predação. Tremam apenas se criarem falsos relatos e se apoiarem orgulhosamente sobre eles. Vão embora agora e não mencionem mais isso.
    A evidência interna, no relato escrito a mão, identifica seu autor como Ikonicre, majordomo de Lorde Leto no ano 2116.
    Deve-se dedicar atenção ao uso, por Lorde Leto, da palavra predação. Isso é altamente sugestivo em vista das teorias apresentadas pela Reverenda Madre Syaksa, de que o Imperador-Deus vê a si próprio como um predador no sentido natural.
    A Irmã Chenoeh foi convidada a acompanhar as Oradoras Peixes no cortejo que seguiu uma das pouco freqüentes peregrinações de Lorde Leto. Em certo trecho ela foi chamada para caminhar ao lado da Carreta Real, podendo conversar com Lorde Leto em pessoa. Ela relata o diálogo como se segue:
    Lorde Leto disse: "Aqui, na Estrada Real, às vezes me sinto como se me colocasse sobre muralhas, protegendo-me contra os invasores.
    A Irmã Chenoeh disse: "Ninguém o ataca aqui, Senhor."
    Lorde Leto disse: "Sua Bene Gesserit me assalta por todos os lados. Mesmo agora, vocês buscam subornar minhas Oradoras Peixes."
    A Irmã Chenoeh diz que se preparou para a morte, mas que o Imperador-Deus apenas deteve sua carreta e olhou por sobre ela para o seu séquito. Ela conta que os outros pararam, aguardando na estrada em bem treinada passividade, todos mantendo respeitosa distância.
    E Lorde Leto disse: "Lá está minha pequena multidão e eles me dizem tudo. Não negue minha acusação."
    A Irmã Chenoeh disse: "Eu não estou negando."
    Lorde Leto olhou então para ela e disse: "Não tema por sua pessoa. E meu desejo que relate minhas palavras à sua Irmandade."
    A Irmã Chenoeh diz ter percebido então que Lorde Leto sabia tudo a respeito dela, a respeito de sua missão, seu treinamento como registradora oral, tudo. "Ele era como uma Reverenda Madre", ela comentou. "Não era possível esconder-lhe coisa alguma."
    E Lorde Leto então lhe ordenou: "Olhe para a minha Cidade Festival e me diga o que vê."
    A Irmã Chenoeh olhou para Onn e disse: "Eu vejo a cidade a distância. Ela é bela à luz da manhã. La' está a sua floresta à direita. Ela possui tantas tonalidades de verde que eu poderia passar o dia inteiro a descrevê-las. Para a esquerda e por toda a volta da Cidade, espraiam-se os jardins e as casas de seus servidores. Alguns deles parecem muito ricos e outros, muito pobres."
    Lorde Leto disse: "Nós atravancamos esta paisagem! Árvores atravancam. Casas, jardins;,.. Você não pode exultar ante novos mistérios em tal paisagem.
    A Irmã Chenoeh, estimulada pelas garantias de Leto, perguntou: "E o Senhor realmente deseja os mistérios?"
    Ele respondeu: "Não existe liberdade espiritual externa em tal panorama. Não percebe isso? Não temos um universo aberto para partilhar aqui. Tudo é fechado... Portas, trancas, trincos!
    A Irmã Chenoeh indagou: "Será que a humanidade não tem mais necessidade de privacidade ou proteção?"
    Lorde Leto disse: "Quando você voltar, diga a suas irmãs que eu vou restaurar a visão exterior. Uma paisagem como esta leva a pessoa a olhar para seu interior em busca de qualquer liberdade de espírito que possa encontrar dentro de si. E a maioria dos humanos não é suficientemente forte para encontrar liberdade no seu interior."
    A Irmã Chenoeh respondeu: "Eu relatarei suas palavras com precisão, Senhor."
    Lorde Leto disse: "Certifique-se disso. Diga a suas irmãs também que as Bene Gesserits, entre todas as pessoas, devem conhecer os perigos da procriação em busca de uma característica particular, à procura de- um objetivo genético definido."
    A Irmã Chenoeh diz que essa era uma referência óbvia ao pai de Lorde Leto, Paul Atreides. Deve-se notar que nosso programa de procriação conquistou o Kwisatz Haderach uma geração mais cedo. Ao se tornar o Muad'Dib, líder dos Fremen, Paul Atreides escapou ao nosso controle. Não há dúvida de que ele era um macho com os poderes de uma Reverenda Madre, além de outros poderes pelos quais a humanidade ainda se encontra pagando um pesado preço. Como Lorde Leto disse:
    "Vocês conseguiram aquilo que não esperavam. Vocês me conseguiram, o coringa do baralho. E eu consegui Siona."
    Lorde Leto recusou-se a esclarecer essa referência à filha de seu majordomo, Moneo. A questão está sendo investigada.
    Nos outros assuntos de interesse para a Irmandade, nossas investigadoras forneceram-nos as seguintes informações sobre:

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    AS ORADORAS PEIXES
    As legiões femininas de Lorde Leto elegeram suas representantes para comparecerem ao Festival Decenal em Arrakis. Três representantes estarão presentes para cada guarnição planetária. (Ver, em anexo, relação das escolhidas.) Como de costume, nenhum adulto do sexo masculino comparecerá, nem mesmo os consortes das oficiais Oradoras Peixes. A lista de consortes mudou muito pouco neste período do relatório. Acrescentamos os nomes, com informações genealógicas, onde era possível. Note-se que apenas dois nomes podem ser destacados como descendentes dos gholas Duncan Idaho. Nada há de novo que possamos acrescentar quanto às nossas especulações sobre o uso dos gholas em seu programa de procriação.
    Nenhum de nossos esforços no sentido de formar uma aliança entre as Oradoras Peixes e a Bene Gesserit teve sucesso durante este período. Lorde Leto continua a aumentar o tamanho de certas guarnições. Também continua a enfatizar as outras missões das Oradoras Peixes, ao mesmo tempo em que desenfatiza suas missões militares. Isso teve o resultado esperado de aumentar a admiração, o respeito e a gratidão pela presença dessas guarnições em cada local. (Ver, em anexo, a relação das guarnições que aumentaram de tamanho. Nota do Editor: As únicas guarnições pertinentes eram as situadas nos planetas natais das Bene Gesserits, dos Ixianos e dos Tleilaxu. Não houve aumento do número de monitores da Corporação Espacial.)

    CLERO
    Exceto por algumas substituições e mortes naturais que estão enumeradas nos anexos, não houve mudanças significativas. Os consortes e os funcionários destacados para a realização de tarefas rituais permanecem poucos, seus poderes limitados pela contínua necessidade de consultar Arrakis antes de qualquer ação importante. Na opinião da Reverenda Madre Syaksa e de algumas outras, a característica religiosa das Oradoras Peixes encontra-se em lento declínio.

    PROGRAMA DE PROCRIAÇÃO
    A não ser a inexplicada referência a Siona e à nossa falha com seu pai, nada temos a acrescentar com relação à nossa contínua monitoração do programa de procriação de Lorde Leto. Existem evidências de uma certa casualidade em seu plano, reforçadas pela declaração de Lorde Leto a respeito de "objetivos genéticos", mas não temos certeza de que ele tenha sido sincero com a Irmã Chenoeh. Chamamos sua atenção para as muitas ocasiões em que ele ou mentiu ou mudou de direção drasticamente e sem qualquer aviso.
    Lorde Leto continua a proibir nossa participação em seu programa de procriação. Suas monitoras em nossa guarnição de Oradoras Peixes permanecem inflexíveis quanto a eliminar nossos nascimentos a que fazem objeção. Somente os mais rigorosos controles nos permitiram manter o nível de Reverendas Madres durante este período do relatório. Nossos protestos não obtiveram resposta. E, em resposta a uma pergunta direta da Irmã Chenoeh, Lorde Leto disse:
    "Agradeçam por aquilo que vocês tem."
    Esse aviso é notado aqui. Nós transmitimos uma graciosa carta de agradecimento a Lorde Leto.

    ECONOMIA
    A Irmandade continua mantendo sua solvência, mas as medidas de economia não podem ser afrouxadas. De fato, como precaução, novas medidas serão instituídas durante o próximo período de relatório. Essas medidas incluirão a redução dos usos rituais da melange e o aumento das taxas cobradas por nossos serviços normais. Esperamos dobrar as mensalidades para o ensino de mulheres das Grandes Casas durante os próximos quatro períodos de relatório. Vocês, portanto, ficam encarregadas de começar a preparar seus argumentos em defesa de tal procedimento.
    Lorde Leto negou nossa petição no sentido de um aumento da nossa quota de melange. Nenhuma razão foi fornecida.
    Nosso relacionamento com a Combine Honnete Ober Advancer Mercantiles permanece sólido. A CHOAM obteve, no período deste relatório, um cartel regional de Jóias Estelares, projeto do qual obtemos lucro substancial através de nossas atividades de assessoria e barganha. Os atuais lucros desse acordo devem ser mais que suficientes para compensar nossas perdas em Giedi Prime. O investimento em Giedi Prime foi cancelado.

    GRANDES CASAS
    Trinta e uma das antigas Grandes Casas sofreram desastres econômicos durante o período deste relatório. Somente seis conseguiram manter o status de Casa Menor. (Ver relação em anexo.) Essa continua a ser uma tendência geral, notada durante os mil anos passados, quando as antigas Grandes Casas foram perdendo gradualmente a sua importância. Deve-se notar que as seis que conseguiram evitar o desastre total eram todas fortes investidoras da CHOAM, e cinco dessas seis estavam profundamente envolvidas no Projeto das Jóias Estelares. A única exceção apresentava um portfolio diversificado, incluindo um investimento substancial em antigas peles de baleia de Caladan.
    (Nossas reservas de arroz ponji quase dobraram neste período, à custa de nossas ações em peles de baleia. As razões para essa decisão serão revistas no próximo período.)

    VIDA FAMILIAR
    Como foi observado por nossas investigadoras durante os 2 mil anos precedentes, a homogeneização da vida familiar continua inalterada. As exceções são aquelas que devíamos esperar: a Corporação, as Oradoras Peixes, os Correios Reais e os mutáveis Dançarmos Faciais dos Tleilaxu (que ainda são híbridos, a despeito de todos os esforços no sentido de mudar tal condição), e nossa própria situação, é claro.
    Deve-se notar que a estrutura familiar se torna mais e mais semelhante, não importando qual o planeta de residência, circunstância que não pode ser considerada acidental. Observamos aqui a emergência de um dos grandes desígnios de Lorde Leto. Mesmo as famílias mais pobres são bem alimentadas, é verdade, mas as condições da vida diária se tornam cada vez mais estáticas.
    Lembro a vocês uma declaração de Lorde Leto que foi relatada há mais de oito gerações:
    "Eu sou o único espetáculo que resta no Império."
    A Reverenda Madre Syaksa propôs uma explicação teórica para essa tendência, uma teoria que muitas entre nós estão começando a compartilhar. A RM Syaksa atribui a Lorde Leto um motivo baseado no conceito de despotismo hidráulico. Como sabem, o despotismo hidráulico só é possível quando a substância, ou condição sobre a qual a vida em geral se assenta de modo absoluto, pode ser controlada por uma força relativamente pequena e centralizada. O conceito de despotismo hidráulico originou-se quando o fluxo de água para irrigação aumentava as populações locais até um nível de dependência absoluta. Quando o fluxo da água era interrompido, as pessoas morriam em grande número.
    Esse fenômeno tem se repetido muitas vezes ao longo da história humana, e não apenas com a água e os produtos da terra cultivada, mas também com combustíveis hidrocarbonados, tais como o petróleo e o carvão, os quais eram controlados através de oleodutos e outras redes de distribuição. Em certa época, quando a distribuição de eletricidade era efetuada apenas através de complicadas redes de fios estendidos através da paisagem, até mesmo esse recurso energético serviu de base para o despotismo hidráulico.
    A RM Syaksa propõe que Lorde Leto está conduzindo o Império rumo a uma dependência cada vez maior em relação à melange. Vale notar que o processo de envelhecimento pode ser considerado uma doença para a qual a melange constitui um tratamento específico, embora não uma cura. A RM Syaksa sugere que Lorde Leto pode mesmo chegar ao ponto de introduzir uma nova doença que só possa ser curada com a melange. Embora essa possa parecer uma idéia extravagante, não deve ser inteiramente descartada como possibilidade. Coisas mais estranhas já aconteceram, e não devemos subestimar o papel da sífilis na história humana inicial.

    TRANSPORTES/CORPORAÇÃO
    O sistema de transporte por três modos, outrora peculiar a Arrakis (isto é: a pé, com as cargas pesadas montadas em catres erguidos por suspensores; pelo ar, via ornitópteros; e fora do planeta, através dos transportes da Corporação), tem passado a dominar mais e mais planetas do Império. A principal exceção permanece sendo Ix.
    Atribuímos isso, em parte, a uma involução planetária de volta a estilos de vida sedentários e estáticos. E em parte como tentativa de copiar o padrão de Arrakis. A aversão generalizada a tudo que seja Ixiano não desempenha menor papel nessa tendência. E há também o fato de que as Oradoras Peixes promovem esse padrão como um meio de reduzir seu trabalho na manutenção da ordem.
    A parte da Corporação Espacial nessa tendência repousa sobre a absoluta dependência de seus Navegadores com relação à melange. Por isso estamos mantendo uma vigilância minuciosa quanto ao esforço conjunto de Ix e da Corporação no sentido de desenvolverem um substitutivo mecânico para os talentos de predição dos Navegadores. Sem a melange ou algum outro meio de se projetar o curso de um heighliner, cada viagem transluz da Corporação arrisca-se a terminar em desastre. Embora não sejamos muito entusiásticas quanto a esse projeto Corporação-IX, há sempre uma possibilidade, e deveremos relatar a respeito disso assim que as condições o permitirem.

    O IMPERADOR-DEUS
    A não ser por um pequeno crescimento, notamos pouca mudança nas características físicas de Lorde Leto. A falada aversão à água não foi confirmada, embora o uso desse líquido como barreira contra os vermes da areia originais de Duna esteja bem documentado em nossos registros, da mesma forma que a morte da água, pela qual os Fremen matavam um pequeno verme para produzir a essência de especiaria empregada em suas orgias.
    Existem evidências consideráveis para a crença de que Lorde Leto aumentou sua vigilância sobre Ix, possivelmente como conseqüência do projeto conjunto dos Ixianos com a Corporação. Certamente um sucesso nesse projeto reduziria seu domínio sobre o Império.
    Ele continua a fazer negócios com Ix, comprando partes sobressalentes para a sua Carreta Real.
    Um novo ghola Duncan Idaho foi enviado a Lorde Leto pelos Tleilaxu. Isso deixa claro que o ghola anterior está morto, embora as condições de sua morte não sejam conhecidas. Chamamos sua atenção para indicações anteriores de que o próprio Leto matou alguns de seus gholas.
    Existem evidências crescentes de que Lorde Leto emprega computadores. Se ele está, de fato, desafiando suas próprias proibições e as prescrições do Jihad Butleriano, a posse de uma prova quanto a isso aumentaria nossa influência sobre ele, possivelmente ao ponto de possibilitar empreendimentos conjuntos que há muito temos contemplado. O controle soberano sobre nosso programa de procriação é ainda a nossa preocupação primordial. Continuaremos nossas investigações, tendo em mente, contudo, a seguinte advertência:
    Como em cada relatório anterior a este, devemos considerar a presciência de Lorde Leto. Não resta dúvida de que sua habilidade de prever eventos futuros — habilidade oracular muito mais poderosa que a de qualquer um de seus ancestrais — ainda permanece o principal sustentáculo de seu controle político.
    Nós não a desafiamos!
    E nossa crença que ele conhece cada ação importante que planejamos bem antes de ela acontecer. Guiamos, portanto, pela regra de nunca ameaçar conscientemente sua pessoa ou o que possamos discernir de seu grande plano. Nossa maneira de abordá-lo continuará sendo:
    "Diga-nos se o ameaçamos para que possamos desistir."
    E:
    "Fale-nos de seu grande plano para que possamos ajudá-lo."
    Ele não nos forneceu nenhuma resposta nova a qualquer das duas perguntas durante este período.

    OS IXIANOS
    Além do Projeto conjunto Ix-Corporação, existe pouca coisa de importância para ser relatada. Ix está enviando um novo embaixador para a corte de Lorde Leto, uma certa Hwi Noree, neta de Malky, que um dia foi considerado um grande amigo do Imperador-Deus. A razão para a escolha dessa substituta não nos é conhecida, embora haja um pequeno corpo de evidências indicando que essa Hwi Noree foi criada para um propósito específico, possivelmente para ser a representante Ixiana na Corte. Também temos razão para acreditar que, exatamente como ela, Malky foi geneticamente preparado com esse objetivo oficial em mente.
    Continuaremos a investigar.

    OS FREMEN DE MUSEU
    Essas relíquias degeneradas dos outrora orgulhosos guerreiros continuam a operar como a principal fonte de informações confiáveis sobre o que acontece em Arrakis. Eles representam um importante item no orçamento para o nosso próximo período de relatório, de vez que suas exigências de pagamento estão aumentando e não nos atrevemos a antagonizá-los.
    E interessante notar que, embora suas vidas tenham pouca semelhança com as de seus ancestrais, seu desempenho nos rituais Fremen e sua habilidade de imitar os antigos costumes permanecem impecáveis. Atribuímos isso à influência das Oradoras Peixes sobre o treinamento dos Fremen.

    OS TLEILAXU
    Não acreditamos que o novo ghola Duncan Idaho contenha qualquer surpresa. Os Tleilaxu continuam, a ser muito prejudicados pela reação de Lorde Leto à sua única tentativa de mudar a natureza celular e psíquica do original.
    Um recente enviado dos Tleilaxu renovou suas tentativas de nos atrair a uma aventura conjunta, o alegado propósito sendo a produção de uma sociedade inteiramente feminina, sem a necessidade de machos. Por todas as razões óbvias, incluindo nossa desconfiança quanto a qualquer coisa oriunda dos Tleilaxu, respondemos com nossa habitual negativa educada. Nossa Comitiva ao Festival Decenal de Lorde Leto fará para ele um completo. relatório a respeito disso.
    Respeitosamente, subscrevemo-nos
    Reverendas Madres Syaksa, Yitob, Mamulut, Eknekosk e Akeli.


    Estranho como possa parecer, as grandes lutas, como as que vocês percebem emergir da leitura de meus diários, nem sempre parecem visíveis aos seus participantes. Muito depende do que as pessoas sonham na privacidade de seus corações. Sempre me preocupei em moldar os sonhos assim como as ações. Entre as linhas do meu diário, encontra-se a luta com a visão que a humanidade possui de si mesma — uma disputa suarenta num campo onde as motivações do nosso passado mais obscuro podem brotar de um reservatório inconsciente, tornando-se não apenas eventos com os quais temos de viver, mas eventos que precisamos enfrentar. É o monstro com cabeças de hidra que sempre nos ataca vindo de nosso lado cego. Eu rezo, portanto, para que, quando vocês tiverem atravessado sua porção do Caminho Dourado, a humanidade não seja mais como crianças inocentes dançando ao som de uma música que não podem ouvir.
    — Os diários roubados

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    Nayla caminhava a um passo firme e regular enquanto subia a escadaria circular até a câmara de audiências do Imperador-Deus, no topo da torre sul da Cidadela. A cada vez que ela atravessava o arco sudoeste da torre, as estreitas janelas em fenda lançavam linhas de poeira dourada, bem-definidas, através do seu caminho. Ela sabia que a parede central, ao lado dela, ocultava um elevador Ixiano suficientemente grande para carregar o volumoso corpo de seu Senhor até a câmara de cima. Decerto seria grande o suficiente para carregar seu corpo relativamente pequeno, mas ela não se ressentia do fato de ter de usar as escadarias.
    Através das fendas abertas, a brisa trazia até ela o cheiro queimado de pó de pedra da areia soprada. O sol baixo no horizonte incendiava de luz os flocos de mineral vermelho na parede interna, como pontos de rubi brilhante. Aqui e ali, ela lançava uma olhadela pelas janelas em fenda até as dunas lá embaixo. Mas nem uma vez parou para admirar as coisas que via a seu redor.
    — Você possui uma paciência heróica, Nayla dissera-lhe seu Senhor uma vez.
    A lembrança dessas palavras a animava agora.
    Dentro da torre, Leto seguia o progresso de Nayla subindo a longa escada circular que espiralava em redor do tubo Ixiano. Seu avanço era transmitido até ele por um engenho Ixiano que projetava a imagem dela, com um quarto do tamanho, numa região de foco tridimensional diretamente em frente de seus olhos.
    "Com que precisão ela caminha", pensou ele.
    A precisão, ele sabia, vinha da apaixonada simplicidade da moça.
    Ela usava as roupas azuis das Oradoras Peixes e um manto com capuz sem o falcão no peito. Uma vez passado o posto da guarda, no pé da torre, ela retirara a máscara cibus que ele exigia que usasse nessas visitas pessoais. Seu corpo volumoso, musculoso, era como o de muitas outras de suas guardiãs, mas o rosto não era como o de nenhuma outra em toda a sua memória — quase quadrado, com uma boca tão larga que parecia estender-se em torno das bochechas, ilusão causada pelos profundos vincos nos cantos. Os olhos dela eram de um verde pálido, o cabelo, cortado curto, da cor de marfim velho. Sua testa aumentava o efeito de um quadrado, quase chata com sobrancelhas pálidas que freqüentemente passavam despercebidas devido aos olhos constrangedores. O nariz era reto, uma linha rasa que terminava junto à boca de lábios finos.
    Quando Nayla falava, suas grandes mandíbulas se abriam e se fechavam como as de algum animal primitivo. Sua força, conhecida por poucos fora do Corpo de Oradoras Peixes, era lendária aqui. Leto a vira erguer um homem de 100 quilos com uma só mão. Sua presença em Arrakis fora conseguida originalmente sem a intervenção de Moneo, embora o majordomo soubesse que Leto empregava suas Oradoras Peixes como agentes secretas.
    Leto desviou o olhar da imagem em movimento e olhou, através da larga abertura ao seu lado, para o deserto ao sul. As cores das rochas distantes dançaram em sua percepção: marrom, dourado e âmbar profundo. Havia uma linha rosada num penhasco distante, a cor exata das penas da garça pequena. As garças não mais existiam, exceto na memória de Leto, mas ele podia colocar aquela pálida tira de pedra de cor pastel ante um olho interior, e era como se o pássaro extinto voasse diante dele.
    A subida, ele sabia, devia estar começando a cansar até mesmo Nayla. Ela finalmente parou para descansar, detendo-se dois degraus além da marca de três quartos. O lugar preciso onde ela repousava todas as vezes. Era parte de sua precisão, uma das razões pelas quais ele a trouxera de volta de uma distante guarnição em Seprek.
    Um falcão de Duna passou pela abertura ao lado de Leto, a apenas alguns comprimentos de asa da muralha da torre, sua atenção mantida nas sombras da base da Cidadela. Pequenos animais algumas vezes emergiam ali, Leto o sabia. No horizonte, além da rota do falcão, ele podia distinguir fracamente uma linha de nuvens.
    Que coisas estranhas eram elas para o Velho Fremen que existia nele: nuvens em Arrakis, e chuva, e água a céu aberto.
    Leto lembrou suas vozes interiores: "Exceto por este último deserto, o meu Sareer, a remodelação de Duna num Arrakis verdejante prosseguiu implacavelmente desde os primeiros dias do meu reinado."
    A influência da geografia na história fora geralmente despercebida, pensou Leto. Os seres humanos tendiam a observar mais a influência da história na geografia.
    "Quem possui esta passagem de rio? Este vale verdejante? Esta península? Este planeta? Nenhum de nós."
    Nayla estava subindo uma vez mais, seu olhar fixo nas escadas que ainda devia suplantar. Os pensamentos de Leto voltaram-se para ela.
    "De muitas maneiras, ela é a assistente mais útil que já tive. Eu sou o Deus dela. Ela me adora sem questionamentos. Mesmo quando eu, de brincadeira, ataco a sua fé, ela recebe isso meramente como um teste. E se julga superior a qualquer teste."
    Quando ele a enviara para participar da rebelião e lhe dissera para obedecer Siona em todas as coisas, ela não questionara. Quando Nayla duvidava, mesmo quando colocava suas dúvidas em palavras, seus próprios pensamentos eram suficientes para lhe restaurar a fé... ou tinham sido suficientes até então. Recentes mensagens, contudo, tinham deixado claro que Nayla precisava da Sagrada Presença para lhe restaurar a força interior.
    Leto relembrava sua primeira conversa com Nayla, a mulher trêmula em sua avidez para satisfazê-lo:
    — Mesmo que Siona a envie para me matar, você deve obedecer. Ela nunca deve perceber que você serve a mim.
    — Mas ninguém pode matá-lo, Senhor.
    — Mas você deve obedecer Siona.
    — E claro, Senhor. Essa foi a sua ordem.
    — Deve obedecê-la em todas as coisas.
    — Eu o farei, Senhor.
    "Outro teste. Nayla não questiona os meus testes. Ela os trata como a picadas de pulgas. Seu Senhor ordena? Nayla obedece. Não posso permitir que coisa alguma mude esse relacionamento."
    Ela teria dado uma soberba Shadout nos velhos dias, pensou Leto. Fora essa uma das razões pelas quais dera a Nayla uma faca cristalina, uma verdadeira faca cristalina preservada do Sietch Tabr. Pertencera a uma das esposas de Stilgar, e Nayla a usava numa bainha escondida debaixo de seus mantos, mais um talismã do que uma arma. Ele a dera no ritual original, cerimônia que o surpreendera ao evocar emoções que julgara para sempre sepultadas.
    — Este é o dente do Shai-Hulud.
    E lhe estendera a lâmina com suas mãos de pele prateada.
    — Receba-a e você se tornará parte do passado e do futuro Suje-a e o passado não lhe dará futuro algum.
    Nayla aceitara a lâmina, depois a bainha.
    — Tire o sangue de um dedo — Leto ordenara.
    Nayla obedecera.
    — Coloque a faca na bainha. E nunca a retire sem tirar sangue.
    E novamente Nayla obedecera.
    Agora, enquanto Leto observava a imagem tridimensional de Nayla se aproximando, suas reflexões sobre aquela antiga cerimônia eram tocadas pela tristeza. A menos que fosse fixada pela antiga maneira Fremen, a lâmina iria tornar-se cada vez mais quebradiça e inútil. Manteria a sua forma de faca cristalina durante a vida de Nayla, mas não duraria além disso.
    "Eu joguei fora um fragmento do passado."
    Como era triste que as Shadout dos antigos dias se tivessem tornado as Oradoras Peixes de hoje. E uma verdadeira faca cristalina fora usada para unir mais fortemente um servo ao seu senhor. Ele sabia que alguns julgavam que as suas Oradoras Peixes eram de fato sacerdotisas — a resposta de Leto à Bene Gesserit.
    — Ele cria uma nova religião — disseram as Bene Gesserits.
    — Tolice. Eu não crio uma nova religião. Eu sou a religião!
    Nayla entrou na torre-santuário e parou a três passos da carreta de Leto, a cabeça curvada em adequada subserviência.
    Ainda em suas memórias, Leto disse:
    — Olhe para mim, mulher!
    Ela obedeceu.
    — Eu criei uma sagrada obscenidade! Essa religião criada em torno de minha pessoa me desagrada!
    — Sim, Senhor.
    Os olhos verdes de Nayla, nas almofadas douradas de suas faces, olharam para ele sem questionamento, sem compreensão, sem a necessidade de qualquer resposta.
    "Se eu a mandasse colher estrelas, ela sairia daqui e tentaria fazê-lo. Pensa que a estou testando uma vez mais. Creio que ela poderia enfurecer-me."
    — Essa maldita religião deve terminar comigo! — gritou Leto.
    — Por que eu desejaria deixar uma religião à solta entre minha gente? As religiões arruinam por dentro — impérios e indivíduos da mesma maneira! E tudo o mesmo.
    — Sim, Senhor.
    — As religiões criam radicais e fanáticos como você!
    — Obrigada, Senhor.
    A pseudo-ira de vida curta reafundou nas profundezas das suas memórias. Nada riscara a superfície dura da fé de Nayla.
    — Topri enviou-me um relatório através de Moneo — disse Leto. — Fale-me a respeito desse Topri.
    — Topri é um verme.
    — Não é disso que você chama a mim quando está entre os rebeldes?
    — Eu obedeço o meu Senhor em tudo.
    "Touché!"
    — Não vale a pena investir em Topri, então? — perguntou Leto.
    — Siona o julgou corretamente. Ele é desajeitado. Diz coisas que outros irão repetir, expondo assim sua atuação no assunto. Segundos depois de Kobat começar a falar, ela já tinha a confirmação de que Topri era um espião.
    "Todos concordam, até mesmo Moneo", pensou Leto. "Topri não é um bom espião.
    A unanimidade divertia Leto. Essas maquinações insignificantes turvavam uma água que permanecia completamente transparente para ele. Os atores, entretanto, ainda serviam aos seus propósitos.
    — Siona não suspeita de você? — perguntou Leto. Eu não sou desajeitada.
    — Sabe por que a convoquei?
    — Para testar a minha fé.
    "Ah, Nayla. Quão pouco você sabe sobre testes."
    — Desejo sua avaliação sobre Siona. Quero vê-la em sua face e em seus movimentos, ouvi-la em sua voz — disse Leto. — Ela está pronta?
    — As Oradoras Peixes precisam dela, Senhor. Por que o Senhor se arrisca a perdê-la?
    — Forçar a questão é a maneira mais segura de perder aquilo que mais valorizo nela — disse Leto. — Ela deve vir a mim com todas as suas forças intactas.
    Nayla abaixou a cabeça.
    — Como o meu Senhor ordenar.
    Leto reconheceu a resposta. Era a reação de Nayla a qualquer coisa que ela deixasse de entender.
    — Será que ela vai sobreviver ao teste, Nayla?
    — Como o meu Senhor descreve o teste... — Nayla ergueu os olhos para o rosto de Leto, encolheu os ombros. — Eu não sei, Senhor. Decerto que ela é forte. Foi a única que sobreviveu aos lobos. Mas ela é governada pelo ódio.
    — Muito naturalmente. Diga-me, Nayla, que ela vai fazer com as coisas que roubou de mim?
    — Topri não o informou a respeito dos livros que eles dizem conter as Suas Sagradas Palavras?
    "Estranho como ela é capaz de colocar maiúsculas nas palavras apenas com a voz", pensou Leto. Sua resposta foi áspera.
    — Sim, sim. Os Ixianos possuem uma cópia e logo a Corporação e a Irmandade estarão trabalhando duramente nelas.
    — Que são aqueles livros, Senhor?
    — São as minhas palavras à minha gente. Quero que sejam lidas. O que desejo saber é o que Siona disse a respeito das plantas da Cidadela que ela levou.
    — Ela diz que existe um grande tesouro em melange embaixo de sua Cidadela, Senhor. E que as plantas irão revelá-lo.
    — As plantas não irão revelá-lo. Ela irá escavar?
    — Ela busca ferramentas Ixianas para fazê-lo.
    — Ix não irá fornecê-las.
    Existe tal tesouro em especiaria, Senhor?
    — Sim.
    — Há uma história sobre como o seu Tesouro é defendido. De que o próprio Arrakis seria destruído se alguém tentasse roubar a Sua melange. É verdade?
    — Sim. E isso despedaçaria o Império. Nada sobreviveria — a Corporação, a Irmandade, Ix ou os Tleilaxu... nem mesmo as Oradoras Peixes.
    Ela estremeceu e então disse:
    — Eu não deixarei que Siona tente obter a Sua especiaria.
    — Nayla! Eu lhe ordenei que obedecesse Siona em tudo. É dessa maneira que você me serve?
    — Senhor? — indagou ela, temerosa de sua raiva, mais perto de perder a fé do que ele jamais vira: era a crise que ele havia criado, sabendo como deveria terminar. Lentamente, Nayla relaxou. Ele podia ver a forma de seus pensamentos como se ela os tivesse exibido em palavras luminosas.
    "O teste final!"
    — Você retornará ao encontro de Siona, e protegerá a vida dela como se fosse a sua própria — disse Leto. — Essa foi a tarefa que preparei para você e que você aceitou. Foi o motivo pelo qual você foi escolhida. É por isso que carrega a lâmina da casa de Stilgar.
    A mão dela estendeu-se para a faca cristalina escondida debaixo do manto.
    "Como é verdadeiro", pensou Leto, "que uma arma pode prender uma pessoa a um padrão previsível de comportamento".
    Ele olhou fascinado para o corpo rígido de Nayla. Os olhos dela estavam vazios de tudo, exceto adoração.
    "O derradeiro despotismo retórico... e eu o desprezo!"
    — Vá, então! — gritou ele.
    Nayla virou-se e fugiu da Sagrada Presença.
    "Será que isto vale a pena?" — pensou Leto.
    Mas Nayla dissera-lhe o que precisava saber. Ela havia renovado sua fé e revelado com precisão aquilo que Leto não podia encontrar na imagem de Siona, que já se esfumava. Os instintos de Nayla deviam ser considerados.
    "Siona chegou ao ponto explosivo de que eu preciso."


    Os Duncans sempre acham estranho que eu escolha mulheres para as forças de combate, mas as minhas Oradoras Peixes são um exército temporário em todos os sentidos. Embora possam ser violentas e perversas, as mulheres são profundamente diferentes dos homens em sua dedicação à batalha. O preço da gênese acaba por predispo-las a um comportamento mais protetor em relação à vida. E elas têm se revelado as melhores mantenedoras do Caminho Dourado; eu reforço isso em minhas especificações para o seu treinamento. Elas são poupadas por algum tempo das rotinas ordinárias. Eu lhes designo ações especiais com as quais poderão gozar com prazer o resto de suas vidas. Elas chegam à maturidade na companhia de suas irmãs, preparando-se para acontecimentos mais profundos. Aquilo que você compartilha em tal companheirismo sempre o prepara para coisas mais grandiosas. O ar da nostalgia cobre os dias delas entre suas irmãs, fazendo com que esses dias as transformem em algo diferente daquilo que eram. Essa é a maneira pela qual o hoje modifica a história. Nem todos os contemporâneos habitam o mesmo tempo. O passado está sempre mudando, mas poucos o percebem.
    — Os diários roubados

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    Depois de enviar suas ordens às Oradoras Peixes, Leto desceu à cripta no cair da tarde. Achara melhor começar sua entrevista com o novo Duncan Idaho numa sala escura, onde o ghola pudesse ouvi-lo descrever a si próprio antes de realmente vê-lo no corpo pré-verme. Havia uma pequena sala lateral, escavada na rocha negra, fora da rotunda central da cripta, que era adequada para aquela necessidade. A câmara era suficientemente larga para acomodar Leto em sua carreta, mas o teto era baixo. A iluminação vinha de globos luminosos ocultos, os quais ele controlava. Havia apenas uma porta, mas em dois segmentos — um deles se abria amplamente para admitir a Carreta Real; o outro era um pequeno portal de dimensões humanas.
    Leto fez a Carreta Real rolar para dentro da câmara, fechou o grande portal e abriu o menor. Preparou-se então para a sua provação.
    O tédio era um problema crescente. O padrão dos gholas Tleilaxu vinha se tornando tediosamente repetitivo. Certa vez Leto enviara instruções advertindo os Tleilaxu para que não enviassem mais Duncans, mas eles sabiam que iriam desobedecê-lo nesse detalhe.
    "Algumas vezes acho que eles fazem isso para manter viva a desobediência!"
    Os Tleilaxu confiavam em algo importante que, eles sabiam, os protegia em outras questões.
    "A presença de um Duncan satisfaz o Paul Atreides que existe em mim."
    Como Leto explicara a Moneo, nos primeiros dias da presença do majordomo na Cidadela:
    — Os Duncans devem vir a mim com algo mais que a preparação dos Tleilaxu. Você deve cuidar para que minha gente suavize os Duncans e que as mulheres respondam a algumas de suas questões.
    — Que questões elas poderão responder, Senhor?
    — Elas sabem.
    Moneo, é claro, havia aprendido tudo sobre esse procedimento com o correr dos anos.
    Leto ouviu a voz de Moneo do lado de fora da sala escura e então o som da escolta de Oradoras Peixes, seguido pelos passos hesitantes do novo ghola.
    — Após aquela porta — disse Moneo. — Estará escuro lá dentro e nós fecharemos a porta atrás de você. Pare logo depois da porta e espere que Lorde Leto fale com você.
    — Por que vai estar escuro? — A voz do Duncan estava repleta de agressivos receios.
    — Ele irá explicar.
    Idaho foi empurrado para dentro da sala e a porta fechada atrás dele.
    Leto sabia o que o ghola via: apenas sombras entre sombras e a escuridão onde nem mesmo a fonte de uma voz poderia ser determinada. Como de hábito, ele usou a voz de Paul Muad'Dib.
    — Agrada-me vê-lo de novo, Duncan.
    — Eu não posso vê-lo!
    Idaho era um guerreiro, e um guerreiro ataca. Isso tranqüilizou Leto quanto ao fato de esse ghola ter sido completamente restaurado com relação ao original. O jogo de moralidade com o qual os Tleilaxu despertavam as memórias anteriores à morte no ghola sempre deixava algumas incertezas na mente deles. Alguns Duncans acreditavam ter ameaçado um verdadeiro Paul Muad'Dib. Este tinha tais ilusões.
    — Eu ouço a voz de Paul, mas não posso vê-lo — disse Idaho. Não tentou ocultar sua frustração, deixando-a transparecer inteiramente em sua voz.
    Por que um Atreides joga esse joga estúpido? Paul estava realmente morto, num passado distante, e esse era Leto, o' portador das memórias renascidas de Paul... e das memórias de muitos outros! — caso se deva crer nas histórias dos Tleilaxu.
    — Você foi informado de que é apenas o último de uma longa linha de duplicatas — disse Leto.
    — Eu não tenho nenhuma dessas memórias.
    Leto reconheceu a histeria na voz do Duncan, quase sem controle sob a bravura do guerreiro. As malditas táticas de restauração pós-tanque dos Tleilaxu tinham produzido o habitual caos mental. Esse Duncan tinha chegado num estado de quase choque, suspeitando fortemente estar louco. Leto sabia que os poderes mais sutis de transmissão de confiança seriam necessários para tranqüilizar o pobre coitado. Isso iria esgotar emocionalmente a ambos.
    — Houve muitas mudanças, Duncan — disse Leto. — Uma coisa, entretanto, não mudou. Ainda sou um Atreides.
    — Eles dizem que seu corpo é...
    — Sim, isso também mudou.
    — Os malditos Tleilaxu! Tentaram me levar a matar alguém. . Eu... bem, ele se parecia com você. Subitamente me lembrei de quem eu era, e lá estava esse. . Poderia ter sido um ghola Muad'Dib?
    — O mimetismo de um Dançarino Facial, eu lhe asseguro.
    — Ele falava e se parecia tanto com. . Você tem certeza?
    — Um ator, não mais que isso. Ele sobreviveu?
    — E claro! Era assim que eles despertavam minhas memórias. Eles explicaram toda a maldita coisa. E verdade?
    — E verdade, Duncan. Detesto isto, mas o permito pelo prazer de sua companhia.
    "A vítima potencial sempre sobrevive", pensou Leto. "Pelo menos com relação aos Duncans que eu vejo. Há sempre falhas, o falso Paul morto e os Duncans destruídos. Mas sempre existem mais células cuidadosamente preservadas do original."
    — E quanto ao seu corpo? — quis saber Idaho.
    O Muad'Dib poderia retirar-se agora; Leto voltou a usar sua voz normal.
    — Eu aceitei as trutas da areia como minha pele. Elas têm me modificado desde então.
    — Por quê?
    — Explicarei isso na ocasião devida.
    — Os Tleilaxu disseram-me que parece um verme da areia.
    — E o que minhas Oradoras Peixes disseram?
    — Elas disseram que é Deus. Por que as chama de Oradoras Peixes?
    — Um antigo conceito. As primeiras sacerdotisas conversavam com peixes em seus sonhos. Elas aprenderam coisas valiosas desse modo.
    — Como sabe?
    — Eu sou aquelas mulheres... e tudo que veio antes e depois delas.
    Leto ouviu a garganta de Idaho engolir em seco, e então a declaração:
    — Percebo a razão da escuridão. Está me dando tempo para me ajustar.
    — Vocês sempre foram rápidos, Duncan.
    "Exceto quando foram lentos."
    — Por quanto tempo tem sofrido essa mudança?
    — Mais de 3.500 anos.
    — Então, o que os Tleilaxu me contaram é verdade.
    — Eles raramente se atrevem a mentir hoje em dia.
    — Isso é um tempo muito longo.
    — Muito longo.
    — Os Tleilaxu... me copiaram muitas vezes?
    — Muitas.
    "E hora de você perguntar quantas, Duncan."
    — Quantos de mim?
    — Deixarei que veja os registros por si mesmo, Duncan.
    "E assim a coisa começa", pensou Leto.
    Esse diálogo sempre parecia satisfazer aos Duncans, mas não havia como escapar à natureza da questão:
    "Quantos de mim?"
    Os Duncans não faziam distinções de carne, embora nenhuma memória mútua passasse entre gholas do mesmo estoque.
    — Eu relembro minha morte — disse Idaho. — Lâminas dos Harkonnen, um monte delas tentando atingi-lo e a Jessica.
    Leto restaurou momentaneamente a voz do Muad'Dib para um rápido jogo:
    — Eu estava lá, Duncan.
    — Eu sou um substituto, não é verdade? — indagou Idaho.
    — E verdade — respondeu Leto.
    — Como foi que os outros de mim... quero dizer, como eles morreram?
    — Toda carne se desgasta, Duncan. Está nos registros.
    Leto esperou pacientemente, imaginando por quanto tempo essa história suavizada satisfaria esse Duncan.
    — Como você se parece realmente? — indagou Idaho. Que é esse corpo de verme da areia que os Tleilaxu descreveram?
    — Ele vai produzir algum tipo de verme da areia, um dia. Já está bem avançado na estrada da metamorfose.
    — Que quer dizer com algum tipo?
    — Eles terão mais gânglios. Serão conscientes.
    — Não podemos contar com algum tipo de iluminação? Gostaria de vê-lo.
    Leto comandou os holofotes e uma brilhante iluminação inundou a câmara. As paredes negras e as fontes de luz tinham sido preparadas para focalizarem a iluminação sobre Leto, tornando visíveis todos os detalhes.
    Idaho percorreu com o olhar o corpo facetado, cinza-prata, notou o início da formação dos anéis do verme, os flexionamentos sinuosos. .. as pequenas protuberâncias que um dia haviam sido as pernas e os pés, uma delas de certo modo mais curta que a outra. E depois trouxe sua atenção de volta para os braços e mãos bem-definidos, erguendo o olhar para a face encapuzada, com sua pele rósea quase perdida na imensidão, um apêndice ridículo em tal corpo.
    — Bem, Duncan — disse Leto. — Você foi avisado.
    Idaho gesticulou, incapaz de falar, apontando para o corpo pré-verme.
    Leto fez a pergunta por ele:
    — Por quê?
    Idaho assentiu com a cabeça.
    — Ainda sou um Atreides, Duncan, e lhe asseguro com toda a honra de meu nome que houve razões que me compeliram a isso.
    — Mas o que poderia...
    — Você aprenderá com o tempo.
    Idaho apenas sacudiu a cabeça de um lado para o outro.
    — Não é uma revelação agradável — disse Leto. — Vai exigir que aprenda outras coisas primeiro. Confie nas palavras de um Atreides.
    Através dos séculos, Leto descobrira que essa invocação da profunda lealdade de Idaho para com tudo que fosse Atreides sufocava a explosão imediata de perguntas mais pessoais. E uma vez mais a fórmula funcionou.
    — Assim, devo servir aos Atreides novamente. Isso soa familiar, não soa?
    — De muitos modos, velho amigo.
    — Velho para você, talvez, mas não para mim. Como irei servi-lo?
    — Minhas Oradoras Peixes não lhe disseram?
    — Elas disseram que eu iria comandar a sua Guarda de elite, uma força escolhida entre elas. Não entendo isso. Um exército de mulheres?
    — Preciso de um companheiro de confiança que possa comandar a minha Guarda. Você faz objeção?
    — Por que mulheres?
    — Existem diferenças de comportamento entre os sexos que tornam as mulheres extremamente valiosas nesse papel.
    — Não está respondendo a minha pergunta.
    — Você as julga inadequadas?
    Algumas delas parecem ser bem duras, mas.
    — Outras foram, ummm... suaves com você?
    Idaho corou.
    Leto achou essa reação encantadora. Os Duncans estavam entre os poucos humanos dessa época capazes dessa reação. Era uma coisa compreensível, produto do treinamento inicial dos Duncans, de seu próprio senso pessoal de honra — muito cavalheiresco.
    — Não vejo por que confia em mulheres para protegê-lo — disse Idaho, o sangue refluindo lentamente de suas faces. Ele olhou zangado para Leto.
    — Mas sempre confiei nelas, assim como confio em você. com minha vida.
    — De que deveremos protegê-lo?
    — Moneo e minhas Oradoras Peixes deverão atualizá-lo nesses assuntos.
    Idaho mudou o apoio de um pé para o outro, seu corpo fazendo um meneio num ritmo rápido. Olhou à volta da sala, seus olhos não se focalizando em coisa alguma. Com o gesto abrupto de uma decisão súbita, voltou sua atenção para Leto.
    — Como devo chamá-lo?
    Era o sinal de aceitação pelo qual Leto estivera esperando.
    — Lorde Leto serviria?
    — Sim... meu Lorde. — Idaho olhou diretamente para os olhos, que tinham o azul total dos Fremen. — E verdade o que as suas Oradoras Peixes dizem?.. . que você tem memórias de...
    Nós estamos todos aqui, Duncan — respondeu Leto, na voz paternal de seu avô, e então: — Mesmo as mulheres estão aqui, Duncan. — E era a voz de Jessica, a avó paterna de Leto.
    — Você os conhecia bem — disse Leto. — E eles a você.
    Idaho respirou fundo, de modo trêmulo.
    — Vai levar algum tempo para que eu me acostume com isso.
    — Foi exatamente essa a minha reação inicial — disse Leto.
    Uma explosão de riso sacudiu Idaho, e Leto achou que era mais do que a fraca piada merecia, mas permaneceu em silêncio.
    Daí a pouco Idaho disse:
    — Suas Oradoras Peixes deviam colocar-me num estado de disposição favorável, não?
    — E tiveram sucesso?
    Idaho estudou o rosto de Leto, reconhecendo as distintas feições Atreides.
    — Vocês Atreides sempre me conheceram muito bem.
    — Assim é melhor — disse Leto. — Você está começando a aceitar que eu não sou apenas um Atreides. Sou todos eles.
    — Paul disse isso uma vez.
    — Assim eu disse! — E com tanto da personalidade original quanto poderia ser transmitido em tom e característica da voz, era o Muad'Dib falando.
    Idaho engoliu em seco e olhou para a porta da câmara.
    — Você tirou alguma coisa de nós — ele disse. — Posso senti-lo. Aquelas mulheres... Moneo...
    "Nós contra você", pensou Leto. "Os Duncans sempre escolhem ficar do lado humano."
    Idaho voltou sua atenção para o rosto de Leto.
    — Que foi que nos deu em troca?
    — Por todo o Império, a Paz de Leto!
    — E eu posso ver que todos estão alegremente felizes! E por isso que precisa de um guarda pessoal.
    Leto sorriu.
    — Minha paz é realmente uma tranqüilidade forçada. E os seres humanos possuem uma longa história de reação à tranqüilidade.
    — Assim, você nos deu as Oradoras Peixes?
    — E uma hierarquia que você pode identificar sem qualquer erro.
    — Um exército feminino — murmurou Idaho.
    — A derradeira força de sedução masculina — explicou Leto.
    — O sexo sempre foi uma forma de controlar a agressividade do macho.
    — E isso que elas fazem?
    — Elas previnem ou controlam os excessos, que levariam a uma violência mais dolorosa.
    — E você deixa-as acreditarem que é um deus. Não creio que goste disso.
    — A maldição da santidade é tão ofensiva para mim quanto o é para você!
    Idaho franziu a testa. Não era a resposta pela qual tinha esperado.
    — Que tipo de jogo está jogando, Lorde Leto?
    — Um jogo muito antigo, mas com novas regras.
    — As suas regras!
    — Preferiria que eu tivesse entregue tudo de volta à CHOAM, à Landsraad e às Grandes Casas?
    — Os Tleilaxu dizem que não existe mais Landsraad. Você não permite a verdadeira autogestão.
    — Muito bem, eu poderia então sair de cena para que as Bene Gesserits assumissem. Ou talvez os Ixianos ou os Tleilaxu? Você preferiria que eu encontrasse um outro Barão Harkonnen para assumir o controle do Império? Diga o nome, Duncan, e eu abdicarei!
    Ante essa avalancha de significados, Idaho sacudiu a cabeça de um lado para o outro.
    — Nas mãos erradas — disse Leto —, o poder monolítico centralizado é um instrumento perigoso e volátil.
    — E as suas mãos são as certas?
    — Não tenho certeza quanto às minhas mãos, mas lhe digo uma coisa, Duncan: tenho certeza quanto às mãos daqueles que vieram antes de mim. Eu os conheço.
    Idaho virou as costas para Leto.
    "Que gesto fascinante, fundamentalmente humano", pensou Leto. "A rejeição somada à aceitação de sua vulnerabilidade."
    Leto falou para as costas de Idaho.
    — Você faz uma objeção honesta a que eu use as pessoas sem o conhecimento e o consentimento pleno delas?
    Idaho voltou o perfil para Leto, depois virou a cabeça para fitar a face envolta nas dobras da truta da areia, inclinando-a um pouco para diante, de modo a enxergar o interior dos olhos totalmente azuis.
    "Ele está me estudando", pensou Leto. "Mas só tem um rosto através do qual me avaliar."
    Os Atreides ensinavam sua gente a conhecer os sinais sutis na face e no corpo, e Idaho era bom nisso. Mas a compreensão podia ser notada chegando sobre ele: aquilo estava além da sua capacidade.
    Ele pigarreou.
    — Qual seria a pior coisa que pediria de mim?
    "Quão típico de um Duncan!", pensou Leto. Este aqui era um exemplo clássico. Idaho daria sua lealdade aos Atreides, ao guardião de seu juramento, mas deixava claro que não iria além dos limites de sua própria moral como pessoa.
    — Eu lhe pedirei para me guardar com todos os meios que forem necessários, e lhe pedirei para guardar o meu segredo.
    — Que segredo?
    — Que sou vulnerável.
    — Que não é Deus?
    — Não no sentido fundamental.
    — Suas Oradoras Peixes falam a respeito de rebeldes.
    — Eles existem.
    — Por quê?
    — Eles são jovens e não se convenceram de que meu caminho é o melhor. E muito difícil convencer os jovens de qualquer coisa. Eles já nascem sabendo tanto.
    — Nunca ouvi um Atreides desdenhar os jovens desse modo.
    — Talvez seja porque eu sou tão velho... uma velhice composta por muitas velhices. E minha tarefa se torna cada vez mais difícil a cada geração que passa.
    — E qual é sua tarefa?
    — Vai chegar a entendê-la enquanto prosseguirmos.
    — E que acontece se eu falhar ante você? Suas mulheres me eliminam?
    — Eu tento não pôr sobre minhas Oradoras Peixes o fardo da culpa.
    — Mas o poria sobre mim?
    — Se aceitar.
    — Se achar que é pior que os Harkonnen, eu me voltarei contra você.
    "Quão típico de um Duncan. Ele mede todo o mal em relação aos Harkonnen. Quão pouco ele conhece a respeito do mal."
    Leto disse:
    — O Barão devorava planetas inteiros, Duncan. Que poderia ser pior do que isso?
    — Devorar o Império.
    — Eu estou prenhe do meu Império. E morrerei dando à luz a ele.
    — Se eu puder acreditar nisso.
    — Comandará minha Guarda?
    — Por que eu?
    — Você é o melhor.
    — Trabalho perigoso, imagino. Foi assim que meus antecessores morreram, fazendo seu trabalho perigoso?
    — Alguns deles.
    — Eu gostaria de ter as memórias desses outros!
    — Não poderia tê-las e ser fiel ao original.
    — Mas quero aprender a respeito deles.
    — Você aprenderá.
    — Assim, os Atreides ainda precisam de uma lâmina afiada?
    — Temos tarefas que apenas um Duncan Idaho pode fazer.
    — Você" diz que... nós... — Idaho engoliu em seco, olhou para a porta e então de novo para o rosto de Leto.
    Leto falou para ele como o Muad'Dib teria falado, mas conservando sua própria voz:
    — Quando nós subimos juntos para o Sietch Tabr pela última vez, você tinha minha lealdade e eu tinha a sua. Nada nisso mudou realmente.
    — Esse foi seu pai.
    — Esse fui eu! — A voz de comando do Muad'Dib, partindo do volume de Leto, sempre chocava os gholas.
    Idaho sussurrou:
    — Todos vocês... nesse único... corpo... — Ele se interrompeu, incapaz de prosseguir.
    Leto permaneceu em silêncio. Este era o momento da decisão.
    Daí a pouco Idaho se permitiu aquele sorriso temerário pelo qual os Duncans eram tão bem conhecidos.
    — Então eu falarei para o primeiro Leto, e para Paul, aqueles que me conhecem melhor. Façam bom uso de mim, pois eu os amei.
    Leto fechou os olhos. Tais palavras sempre o perturbavam. Ele sabia que era o amor que o deixava mais vulnerável.
    Moneo, que estivera ouvindo, veio em seu socorro. Entrou e disse:
    — Senhor, devo levar Duncan Idaho às guardas que ele irá comandar?
    — Sim. — Essa única palavra era tudo que Leto conseguiria pronunciar.
    Moneo pegou Idaho pelo braço e o levou.
    "Bom Moneo", pensou Leto. "Tão bom. Ele me conhece tão bem, mas não tenho a menor esperança de que ele jamais venha a me compreender."


    Eu conheço o mal em meus ancestrais porque sou cada uma daquelas pessoas. Esse equilíbrio é delicado ao extremo. Sei que poucos entre aqueles que lêem minhas palavras chegaram a pensar em seus ancestrais desse modo. Por acaso já lhes ocorreu que seus ancestrais foram sobreviventes, e que a própria sobrevivência às vezes envolve decisões selvagens, uma espécie de brutalidade lasciva que a humanidade civilizada se esforça duramente para suprimir. Que preço vocês pagariam por tal controle? Vocês aceitariam a sua própria extinção?
    — Os diários roubados

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    Enquanto se vestia para sua primeira manhã no comando das Oradoras Peixes, Idaho tentava fugir a um pesadelo. Aquilo o tinha despertado duas vezes, e em ambas as ocasiões ele saíra para a sacada, fitando o céu estrelado enquanto o sonho ainda rugia em sua cabeça.
    Mulheres... mulheres desarmadas em armaduras negras... correndo ao encontro dele com aquele rugido, o som descerebrado de uma turba... acenando com mãos tintas de sangue vermelho... enquanto elas caíam sobre ele, as bocas abertas para exibir presas terríveis!
    Naquele momento ele despertava.
    A luz da manhã pouco fizera para afastar os efeitos do pesadelo.
    Elas lhe haviam providenciado um quarto na torre norte. A sacada debruçava-se sobre uma vista de dunas, até um distante penhasco que parecia ter um vilarejo de casas de barro na sua base.
    Idaho abotoou a túnica enquanto olhava para a paisagem.
    "Por que Leto escolhe somente mulheres para o seu exército?"
    Várias Oradoras Peixes, muito bonitas, se tinham oferecido para passar a noite com o novo comandante, mas Idaho as rejeitara.
    Não era típico dos Atreides usar o sexo como instrumento de persuasão!
    Olhou para o seu traje: um uniforme negro com filetes dourados e um falcão vermelho sobre o lado esquerdo do peito. Isso ao menos era familiar. Não havia insígnia de posto.
    — Elas conhecem o seu rosto — dissera Moneo.
    "Estranho homenzinho, aquele Moneo."
    Esse pensamento o trouxe de volta à realidade. A reflexão lhe dizia que Moneo não era pequeno. "Muito controlado, sim, mas não mais baixo do que eu." Mas Moneo parecia encolhido, como se... dominado por uma estranha calma.
    Idaho olhou em torno do quarto... sibarítico em sua atenção ao conforto — almofadas suaves, equipamentos ocultos por trás de painéis de madeira marrom envernizada. O banheiro era uma adornada exibição de azulejos, num tom azul-pastel, com uma combinação de banheira e chuveiro no qual seis pessoas poderiam tomar banho ao mesmo tempo. O lugar inteiro convidava ao descanso. Eram alojamentos onde você poderia permitir que seus sentidos se perdessem na lembrança de prazeres.
    — Muito hábil — sussurrou Idaho.
    Uma suave batida na porta foi seguida por uma voz feminina dizendo:
    — Comandante? Moneo está aqui.
    Idaho olhou para as cores queimadas de sol no penhasco distante.
    — Comandante? — A voz foi um pouco mais alta.
    — Entre — disse Idaho.
    Moneo entrou, fechando a porta atrás de si. Usava túnica e calças de um branco cor de giz, que forçava os olhos e se concentrarem no rosto. Moneo olhou o interior do aposento.
    — Então foi aqui que elas o colocaram. Aquelas malditas mulheres! Eu suponho que julgaram estar sendo gentis, mas deviam ser mais perspicazes.
    — Como sabe do que eu gosto? — indagou Idaho. Mas ao fazer a pergunta percebeu o quanto era tola.
    "Não sou o primeiro Duncan Idaho que Moneo já viu.
    Moneo apenas sorriu e encolheu os ombros.
    — Não pretendia ofendê-lo, Comandante. Vai ficar com estes alojamentos, então?
    — Gosto da vista.
    — Mas não da mobília. — Era uma declaração, não uma pergunta.
    — Isso pode ser mudado — disse Idaho.
    — Cuidarei disso.
    — Suponho que esteja aqui para explicar minhas tarefas.
    — Até onde eu possa. Sei como tudo lhe deve parecer estranho, a principio. Esta civilização é profundamente diferente daquela que você conhecia.
    — Percebo isso. Como meu... predecessor morreu?
    Moneo encolheu os ombros. Parecia um gesto padrão, mas nada havia de displicente nele.
    — Ele não foi suficientemente rápido para escapar a uma decisão que havia tomado — disse Moneo.
    — Seja específico.
    Moneo suspirou. Os Duncans eram sempre assim... muito exigentes.
    — A rebelião o matou. Deseja saber os detalhes?
    — Serão úteis para mim?
    — Não.
    — Quero um quadro completo dessa rebelião, mas primeiro: por que não há homens no exército de Leto?
    — Ele tem você.
    — Você sabe o que eu quero dizer.
    — Ele tem uma teoria curiosa a respeito de exércitos. Eu discuti isso com ele em muitas ocasiões. Mas não prefere um desjejum antes que eu explique?
    — Não podemos ter as duas coisas ao mesmo tempo?
    Moneo virou-se em direção à porta e disse uma única palavra:
    — Agora!
    O efeito foi imediato e fascinante para Idaho. Uma tropa de jovens Oradoras Peixes enxameou pelo quarto. Duas delas retiraram cadeiras e uma mesa dobrável de trás de um painel e as colocaram na sacada. Outras arrumaram a mesa para duas pessoas. E outras trouxeram a comida: frutas frescas, pastéis quentes e uma bebida fumegante que cheirava fracamente a cafeína e especiaria. Tudo feito com a rápida e silenciosa eficiência, reveladora de uma longa prática. Depois saíram todas como tinham chegado. Sem nenhuma palavra.
    Idaho encontrou-se sentado diante de Moneo, naquela mesa menos de um minuto depois do início dessa curiosa exibição.
    — Toda manhã vai ser assim? — perguntou Idaho.
    — Apenas se você quiser.
    Idaho provou da bebida: café com melange. Reconheceu a fruta: uma suave variedade do melão de Caladan, chamada paradan.
    "Meu favorito."
    — Você me conhece muito bem — disse Idaho.
    Moneo sorriu.
    — Nós tivemos alguma prática. Agora, quanto à sua pergunta.
    — E à curiosa teoria de Leto.
    — Sim. Ele diz que um exército totalmente masculino seria muito perigoso para a sua base civil.
    — Isso é loucura! Sem o exército não haveria nenhuma...
    — Conheço o argumento. Mas ele diz que o exército masculino é um resquício da função de seleção delegada aos machos não-reprodutores em grupos pré-históricos. Diz que é um fato curiosamente consistente serem sempre os machos mais velhos que enviavam os machos mais jovens para a batalha.
    — Que ele quer dizer com função de seleção?
    — Aqueles que estavam sempre no perímetro perigoso, protegendo o núcleo de machos reprodutores, fêmeas e jovens. Os primeiros a encontrarem qualquer predador.
    — E como é que isso é perigoso para os... civis?
    Idaho mordeu um bocado de melão e o achou perfeitamente maduro.
    — Lorde Leto diz que, quando privado de um inimigo externo, o exército inteiramente masculino sempre se volta contra a sua própria população. Sempre.
    — Lutando pelas fêmeas?
    — Talvez. Mas é óbvio que ele não acredita que seja tão simples assim.
    — Não acho que essa seja uma teoria curiosa.
    — Ainda não a ouviu toda.
    — Tem mais?
    — Ah, sim. Ele diz que um exercito inteiramente masculino apresenta forte tendência a atividades homossexuais.
    Idaho olhou furioso por cima da mesa para Moneo.
    — Eu nunca...
    — É claro que não. Ele está falando em sublimação, energias desviadas e todo o resto.
    — Que resto? — Idaho estava irritado com o que via como um ataque à sua auto-imagem masculina.
    — Atitudes de adolescentes, apenas rapazes juntos, piadas e peças executadas puramente para causar dor, lealdade dirigida unicamente aos companheiros de grupo... coisas dessa natureza.
    Idaho falou friamente:
    — E qual é sua opinião?
    — Eu me lembro — Moneo virou-se, continuando a falar enquanto fitava o panorama — de uma coisa que já foi dita e que tenho certeza de ser verdadeira. Ele é cada soldado da história humana. Ofereceu à minha apreciação um desfile de exemplos — figuras de militares famosos que pareciam congelados na adolescência. Eu declinei da oferta. Já li a história por mim mesmo, com todo o cuidado, e reconheci a característica sozinho. — Moneo virou-se e olhou diretamente nos olhos de Idaho. — Pense nisso, Comandante.
    Idaho orgulhava-se de sua honestidade e aquilo o atingia. Cultos de jovens e adolescentes preservados nos militares? Tinha o tom de algo verdadeiro. Havia exemplos em sua própria experiência...
    Moneo assentiu.
    — O homossexual, latente ou não, que mantém essa condição por motivos que poderiam ser considerados puramente psicológicos, tende a se comprazer com um comportamento de indução à dor — buscando-a para si mesmo ou infligindo-a a outros. Lorde Leto diz que isso remonta ao comportamento de seleção nos grupamentos pré-históricos.
    — E você acredita nele?
    — Acredito.
    Idaho engoliu um pedaço de melão. Tinha perdido toda a sua doçura. Engoliu e largou a colher.
    — Terei de pensar nisso — disse Idaho.
    — É claro.
    — Você não está comendo — observou Idaho.
    — Eu me levantei antes da aurora e comi logo depois — respondeu Moneo, apontando para o prato. — As mulheres ficam me tentando continuamente.
    — E costumam ter sucesso?
    — Ocasionalmente.
    — Você está certo. Eu acho essa teoria curiosa. Há mais alguma coisa?
    — Oh, sim, ele diz que, quando livre das contenções homossexuais adolescentes, um exército masculino é essencialmente estuprador. O estupro é freqüentemente acompanhado do assassinato, e esse não é um comportamento favorável à sobrevivência.
    Idaho ficou carrancudo e um pequeno sorriso percorreu a boca de Moneo.
    — Lorde Leto diz que apenas a disciplina Atreides e os controles morais evitaram os piores excessos em sua época.
    Um suspiro profundo estremeceu Idaho. Moneo reclinou-se no assento, pensando em algo que o Imperador-Deus dissera certa vez: "Não importa o quanto clamamos pela verdade. A autoconsciência é freqüentemente dolorosa. Não sentimos simpatia para com uma Reveladora da Verdade."
    — Aqueles malditos Atreides! — deixou escapar Idaho.
    — Eu sou um Atreides — revelou Moneo.
    — O quê?! — Idaho estava chocado.
    — Seu programa de procriação — explicou Moneo. — Estou certo de que os Tleilaxu lhe mencionaram isso. Sou um descendente direto da união da irmã dele com Harq al-Ada.
    Idaho inclinou-se por sobre a mesa.
    — Diga-me então, Atreides, como é que as mulheres dão soldados melhores que os homens?
    — Para elas é mais fácil o amadurecimento.
    Idaho sacudiu a cabeça, perplexo.
    — Elas possuem uma forma constrangedoramente física de passar da adolescência para a maturidade — explicou Moneo.
    Como Lorde Leto costuma dizer: "Carregue uma criança em seu ventre durante nove meses e isso muda você."
    Idaho apenas se reclinou.
    — E o que ele sabe a respeito disso?
    Moneo meramente olhou para ele até Idaho relembrar a multidão que havia em Leto, masculina e feminina. A compreensão desabou sobre Idaho. Moneo viu aquilo, lembrando um comentário do Imperador-Deus: "Suas palavras o marcam com a aparência que você quer que ele tenha."
    Como o silêncio continuasse, Moneo pigarreou. Daí a pouco ele disse:
    — A vastidão das memórias de Lorde Leto costuma deter minha língua também.
    — E ele está sendo honesto conosco? — indagou Idaho.
    — Acredito nele.
    — Mas ele faz tantas. .. quero dizer, tome como exemplo esse programa de procriação. Há quanto tempo está sendo executado?
    — Desde o início. Desde o dia em que ele o tomou das Bene Gesserits.
    — E o que ele deseja com ele?
    — Gostaria de saber.
    — Mas você é...
    — Um Atreides, e seu auxiliar chefe.
    — Ainda não me convenceu de que um exército feminino é o melhor.
    — Elas preservam a espécie.
    Finalmente as frustrações e a raiva de Idaho tinham um alvo.
    — Era isso que eu estava fazendo com elas naquela primeira noite? Procriando?!
    — Possivelmente. As Oradoras Peixes não tomam precaução alguma contra a gravidez.
    — Maldito! Eu não sou um animal que ele pode mandar de estábulo em estábulo como... como um...
    — Como um garanhão?
    — Sim!
    — Mas Lorde Leto se recusa a seguir o padrão Tleilaxu de cirurgia genética e inseminação artificial.
    — O que os Tleilaxu têm a ver com...
    — Eles são uma lição objetiva. Mesmo eu posso perceber isso. Seus Dançarmos Faciais são híbridos, mais próximos de uma colônia de organismos do que dos seres humanos.
    — Aqueles outros de... mim... algum deles foi reprodutor?
    — Alguns. Você tem descendentes.
    — Quem?
    — Eu sou um deles.
    Idaho fitou os olhos de Moneo, subitamente perdido num emaranhado de relacionamentos. E achou tais relacionamentos impossíveis de serem compreendidos. Moneo obviamente era muito mais velho do que... "Mas eu sou"... Qual deles seria verdadeiramente o mais idoso? Qual o ancestral e qual o descendente?
    — Algumas vezes tenho problemas com isso, eu mesmo — consolou Moneo. — Se o ajuda, Lorde Leto me assegura que você não é meu descendente, não em qualquer sentido comum... Entretanto, você pode muito bem ser o pai de alguns dos meus descendentes.
    Idaho sacudiu a cabeça de um lado para o outro.
    — Algumas vezes penso que apenas o Imperador-Deus em pessoa pode entender estas coisas — disse Moneo.
    — Isso é outra coisa — reclamou Idaho. — Esse negócio de divindade.
    — Lorde Leto diz que criou uma sagrada obscenidade.
    Essa não era a resposta que Idaho tinha esperado. "Que é que eu esperava? Uma defesa de Lorde Leto?"
    — Sagrada obscenidade — repetiu Moneo. As palavras escapavam de sua língua com um estranho tom de zombaria.
    Idaho olhou para ele avaliadoramente. "Ele odeia esse Imperador-Deus! Não... ele o teme. Mas não odiamos sempre aquilo que tememos?"
    — Por que você acredita nele? — perguntou Idaho.
    — Você pergunta se eu partilho da religião popular?
    — Não! Mas ele?
    — Acho que sim.
    — Por quê? Por que você pensa assim?
    — Porque ele diz que não deseja criar mais Dançarmos Faciais. Ele insiste em que seu estoque humano, uma vez separado aos pares, procrie do modo como sempre tem sido.
    — E que diabo ele tem a ver com isso?
    — Você me perguntou no que ele acredita. Acho que ele acredita no acaso. Creio que a casualidade é o seu deus.
    — Isso é superstição!
    — Considerando-se as condições do Império, uma superstição muito audaz.
    Idaho olhou novamente com raiva para Moneo.
    — Seus malditos Atreides — murmurou. — Vocês se atreveriam a qualquer coisa!
    Moneo notou que havia desgosto misturado com admiração na voz de Idaho.
    "Os Duncans sempre começam assim."


    Qual a mais profunda diferença entre nós, entre você e eu? Vocês já sabem. São estas memórias ancestrais. As minhas atingem-me num completo clarão de consciência. As suas atuam pelo lado cego. Alguns chamam isso de instinto ou destino. Essas memórias aplicam suas alavancas sobre cada um de nós: naquilo que pensamos e naquilo que fazemos. Vocês se julgam imunes a tais influências? Eu sou Galileu. Eu me coloco aqui e lhes digo: "E no entanto ela se move." E aquilo que se move exerce sua força de maneira que nenhum poder mortal jamais se atreveu a estimar. E eu estou aqui para me atrever a isso.
    — Os diários roubados

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    — Quando era criança, ela me observava, lembra-se? Quando pensava que eu estava distraído, Siona me olhava como o falcão do deserto voando em círculo acima do refúgio de sua presa. Você mesmo mencionou isso.
    Leto rolou seu corpo quarto de volta em sua carreta, enquanto falava. Isso trouxe seu rosto para mais perto de Moneo, que caminhava ao lado do veículo.
    Era quase aurora na estrada do deserto, que seguia sobre a elevada cordilheira artificial, estendendo-se da Cidadela no Sareer até a Cidade Festival. Essa estrada do deserto seguia com a retidão de um feixe de laser até atingir o ponto em que se curvava amplamente, descendo por desfiladeiros em terraços até cruzar o Rio Idaho. O ar estava cheio das névoas espessas do rio, que rolava em seu distante clamor, mas Leto abrira a cobertura-bolha que fechava a frente de sua carreta. A umidade fazia seu corpo de verme comichar com um vago desconforto, mas havia nessa névoa o perfume suave das plantas do deserto, e suas narinas humanas o saboreavam. Ele ordenou que o cortejo parasse.
    — Por que estamos parando, Senhor? — indagou Moneo.
    Leto não respondeu. A carreta estalou enquanto ele erguia o corpo numa curva arqueada que levantou sua cabeça, permitindo-lhe olhar por sobre a Floresta Proibida até o Mar de Kynes, que cintilava prateado bem para a direita. Voltou-se para a esquerda e lá estavam os restos da Muralha Escudo, uma sombra baixa e sinuosa à luz da manhã. A cordilheira aqui fora erguida mais de 2 mil metros para envolver o Sareer e limitar a umidade do ar. Do seu ponto de vista, Leto podia enxergar até o distante desfiladeiro onde ele fizera erguer a sua Cidade Festival de Onn.
    — É um capricho que me faz parar aqui — ele disse.
    — Não deveríamos cruzar a ponte antes de repousarmos? perguntou Moneo.
    — Não estou repousando.
    Leto olhou adiante. Depois de uma série de trechos de descida em serpentina, visíveis dali apenas como sombras sinuosas, a estrada elevada atravessava o rio numa ponte etérea, subia uma crista protetora e então descia para a cidade que, dessa distância, oferecia uma visão de agulhas cintilantes.
    — O Duncan age de modo contido — comentou Leto. — Você teve aquela sua longa conversa com ele?
    — Precisamente como era necessário, meu Senhor.
    — Bem, faz apenas quatro dias. Eles geralmente levam mais que isso para se recuperarem.
    — Ele tem andado ocupado com a sua Guarda, Senhor. Eles se ausentaram até muito tarde na noite passada.
    — Os Duncans não apreciam a caminhada neste espaço aberto. Pensam em coisas que poderiam ser usadas para nos atacar.
    — Eu sei, Senhor.
    Leto virou-se e olhou diretamente para Moneo. O majordomo usava uma capa verde sobre o uniforme branco. Estava de pé ao lado da cobertura em forma de bolha aberta, exatamente no lugar no qual suas funções exigiriam que ficasse durante essas excursões.
    — Você é muito esforçado, Moneo — disse Leto.
    — Obrigado, Senhor.
    Guardas e cortesãos mantinham uma distância respeitosa, bem atrás da carreta. A maioria tentava evitar até mesmo a aparência de estar escutando o que Leto e Moneo diziam. Não Idaho. Ele posicionara algumas das Oradoras Peixes em ambos os lados da Estrada Real, espalhando sua guarda. Agora permanecia olhando para a carreta. Usava um uniforme negro com bordados brancos, presente das Oradoras Peixes, como Moneo dissera.
    — Elas gostam muito desse aí. Ele é bom no que faz.
    — E o que ele faz, Moneo?
    — Como assim? Guarda a sua pessoa, Senhor.
    As mulheres da Guarda usavam uniformes verdes colantes, todos com o falcão vermelho dos Atreides sobre o seio esquerdo.
    Elas o vigiam muito de perto — comentou Leto.
    — Sim, ele está ensinando a elas os sinais com as mãos. Diz que é o modo dos Atreides.
    — Isso certamente é correto. Eu me pergunto por que o anterior não fez o mesmo.
    — O Senhor não sabe?...
    — Estou brincando, Moneo. O Duncan anterior não se sentiu ameaçado até que fosse muito tarde. Esse aí aceitou nossas explicações?
    — Assim me disseram, Senhor. Ele começou bem no seu serviço.
    — Por que ele carrega apenas aquela faca na bainha do cinturão?
    — As mulheres o convenceram de que apenas as especialmente treinadas dentre elas devem portar pistolas laser.
    — Sua cautela carece de fundamento, Moneo. Diga às mulheres que ainda é muito cedo para começarmos a temer esse ai.
    — Como o meu Senhor ordena.
    Era óbvio para Leto que o seu novo Comandante da Guarda não apreciava a presença dos cortesãos. Permanecia bem distante deles. A maioria, tinham lhe informado, era de funcionários públicos. Estavam vestidos da maneira mais luxuosa e elegante para esse dia em que podiam desfilar com todo o seu poder na presença do Imperador-Deus. Leto notava como os cortesãos deviam parecer tolos aos olhos de Idaho. Mas podia lembrar-se de outras exibições de luxo ainda mais tolas e achava que a exibição daquele dia podia representar uma melhoria.
    — Já o apresentou a Siona? — perguntou Leto.
    À menção de Siona, as sobrancelhas de Moneo imobilizaram-se numa contraída expressão de aborrecimento.
    — Acalme-se — disse Leto. — Mesmo quando ela me espionava, eu a tratava com carinho.
    — Sinto o perigo nela, Senhor. Às vezes tenho a impressão de que ela percebe meus pensamentos mais íntimos.
    — A criança sabida conhece o pai.
    — Não estou brincando, Senhor.
    — Sim, vejo isso. Já notou como o Duncan está impaciente?
    — Elas mandaram batedoras sondar a estrada, quase até a ponte.
    — E que foi que encontraram?
    — A mesma coisa que eu achei... um novo Fremen de Museu.
    — Outra solicitação?
    — Não fique zangado, Senhor.
    Uma vez mais, Leto perscrutou adiante. Essa necessária exposição a céu aberto, a longa e majestosa jornada com todas as suas exigências rituais para tranqüilizar as Oradoras Peixes, tudo isso o perturbava. E agora outro suplicante!
    Idaho avançou para se deter diretamente na frente de Moneo.
    Havia uma aparência de ameaça nos movimentos de Idaho. "Decerto que não pode vir tão cedo", pensou Leto.
    — Por que paramos aqui, meu Senhor? — perguntou ele.
    — Eu paro aqui com freqüência — respondeu Leto.
    Era verdade. Ele se voltou e olhou para além da ponte etérea. O caminho serpenteava para baixo, saindo das alturas do canyon para a Floresta Proibida e daí através dos campos ao lado do rio. Leto freqüentemente se detinha ali para observar o nascer do sol. Mas havia algo de especial nessa manhã, no modo como o sol iluminava esse panorama tão familiar... alguma coisa que remexia em antigas memórias.
    Os campos das Plantações Reais estendiam-se para além da floresta, de modo que, quando o sol se erguia sobre a extensa curva de terra, ele inundava de dourado os campos ondulantes de cereais. Esses campos lembravam a Leto a areia, as vastas dunas que um dia haviam marchado por esse mesmo solo.
    "E que um dia marcharão uma vez mais."
    Os cereais não eram exatamente da cor âmbar brilhante de sílica de seu relembrado deserto. Leto olhou para trás, na direção das distâncias cercadas por penhascos de seu Sareer, seu santuário do passado. As cores eram distintamente diferentes. Dava tudo no mesmo, e quando ele olhou uma vez mais para a Cidade Festival, sentiu uma dor onde seus muitos corações uma vez mais se encontravam em mutação, reformando-se em sua lenta transformação para alguma coisa profundamente alienígena.
    "Que há nesta manhã que me faz pensar em minha humanidade perdida?", perguntou-se Leto.
    Dentre todos no Cortejo Real olhando para o cenário familiar da floresta e dos campos de cereais, Leto sabia ser o único ainda capaz de pensar em uma paisagem tão rica quanto o bahr bela ma, o oceano sem água.
    — Duncan — disse Leto —, está vendo lá, na direção da cidade? Aquilo era o Tanzerouft.
    — A Terra do Terror? — Idaho revelou sua surpresa no rápido olhar que lançou para Onn e na maneira súbita como voltou a fitar Leto.
    — O bahr bela ma — disse Leto. — Tem estado oculto sob um tapete de plantas por mais de 3 mil anos. De todos os que vivem em Arrakis hoje em dia, somente nós dois vimos o deserto original.
    Idaho olhou na direção de Onn.
    — Onde está a Muralha Escudo? — perguntou.
    — A Fenda do Muad'Dib é bem ali, o lugar exato onde construímos a Cidade.
    — Aquela linha de pequenas elevações, aquilo era a Muralha Escudo? Que aconteceu com ela?
    — Você está em cima dela.
    Idaho olhou para Leto, depois para a estrada e o que havia à sua volta.
    — Senhor? Devemos continuar? — indagou Moneo.
    "Moneo, com aquele reloginho tiquetaqueando em seu peito, é o estímulo ao dever", pensou Leto. Havia visitantes importantes para ver e outros assuntos vitais. O tempo o pressionava. E ele não gostava quando seu Imperador-Deus falava com os Duncans sobre os velhos tempos.
    Leto tornou-se subitamente consciente de que se detivera naquele lugar por mais tempo do que jamais o fizera. Os cortesãos e as guardas estavam gelados depois da caminhada no ar da manhã. Alguns tinham escolhido suas roupas mais para se exibirem do que para se protegerem.
    "Mas afinal", Leto pensou, "talvez a exibição seja uma forma de proteção".
    — Havia dunas — disse Idaho.
    — Estendendo-se por milhares de quilômetros — concordou Leto.
    Os pensamentos de Moneo se agitaram. Ele estava acostumado aos períodos de reflexão do Imperador-Deus, mas havia um sentimento de tristeza nesse dia. Talvez a morte recente de um Duncan. Leto às vezes deixava escapar informações importantes quando estava triste. Nunca se questionavam os caprichos ou os estados de espírito do Imperador-Deus, mas às vezes eles podiam ser usados.
    "Siona terá de ser advertida", pensou Moneo. "Se aquela jovem tola me ouvir!"
    Ela estava mais rebelde do que já estivera. Muito mais. Leto havia dominado o seu Moneo, sensibilizado sua mente para o Caminho Dourado e os deveres legítimos para os quais ele fora criado. Mas os métodos usados com relação a Moneo não funcionariam com Siona. Em sua observação a respeito disso, Moneo aprendera coisas sobre seu treinamento que ele nunca antes suspeitara.
    — Não vejo qualquer acidente geográfico identificável — estava dizendo Idaho.
    — Bem ali — disse Leto, apontando. — Onde a floresta termina. Aquele era o caminho para a Rocha Partida.
    Moneo procurou não ouvir as vozes. "Foi o fascínio básico pelo Imperador-Deus que finalmente me dominou." Leto nunca deixava de surpreender e assombrar. Ele não era realmente previsível. Moneo olhou para o perfil do Imperador-Deus. "No que ele se tornou?"
    Como parte de seus deveres iniciais, Moneo havia estudado os registros particulares da Cidadela, os relatos históricos da transformação de Leto. Mas a simbiose com a truta da areia permanecia um mistério que nem mesmo as próprias palavras de Leto poderiam decifrar. Se os registros eram confiáveis, a pele de truta da areia tornava seu corpo quase invulnerável ao tempo ou à violência. O núcleo do grande corpo frisado poderia mesmo absorver disparos de armas laser!
    "Primeiro a truta da areia, depois o verme — tudo parte do grande ciclo que produzira a melange." E esse ciclo encontrava-se dentro do Imperador-Deus... marcando a passagem do tempo.
    — Vamos prosseguir — disse Leto.
    Moneo percebeu que perdera alguma coisa. Saiu de seu devaneio e olhou para um sorridente Duncan Idaho.
    — Costumávamos chamar isso de sonhar acordado — disse Leto.
    — Sinto muito, Senhor — disse Moneo. — Eu estava...
    — Você estava sonhando acordado, mas está tudo bem.
    "O estado de espírito dele melhorou", pensou Moneo. "Devo agradecer ao Duncan por isso. Creio."
    Leto ajustou sua posição na carreta, fechou parte da cobertura-bolha de modo a deixar apenas a cabeça livre. A carreta esmagou pequenas rochas no leito da estrada enquanto Leto a ativava.
    Idaho tomou posição junto a Moneo, caminhando ao lado dele.
    — Existem bulbos flutuadores sob a carreta, mas ele usa as rodas. Por quê? — perguntou Idaho.
    — Agrada a Lorde Leto o uso de rodas em lugar da antigravidade.
    — Que faz essa coisa funcionar? Como ele a dirige?
    — Já perguntou a ele?
    — Ainda não tive a oportunidade.
    — A Carreta Real é de manufatura Ixiana.
    — E que isso significa?
    — Dizem que Lorde Leto ativa sua carreta e a controla unicamente pensando de determinado modo.
    — Você não sabe?
    — Esse tipo de perguntas não lhe agrada.
    "Mesmo para aqueles que partilham de sua intimidade", pensou Moneo, "o Imperador-Deus permanece um mistério."
    — Moneo! — chamou Leto.
    — É melhor você voltar para as suas guardas — disse Moneo, gesticulando para que Idaho fosse para a retaguarda.
    — Eu preferiria ficar na frente com elas — retrucou Idaho.
    — Lorde Leto não quer isso! Agora volte.
    Moneo correu para se colocar junto de Leto, ao lado da face do Imperador, notando que Idaho recuava através dos cortesãos até o círculo de guardas da retaguarda.
    Leto olhou para Moneo.
    — Acho que cuidou daquilo muito bem, Moneo.
    — Obrigado, Senhor.
    — Você sabe por que os Duncans querem ficar na frente?
    — Certamente, Senhor. É onde a sua Guarda deveria ficar.
    — E esse aí sente o perigo.
    — Eu não o compreendo, Senhor. Não entendo por que faz essas coisas.
    — Isso é verdade, Moneo.



    O senso feminino de participação originou-se do modo familiar de compartilhar a vida em comum — o cuidado para com os jovens, a obtenção e o preparo do alimento, o partilhar das alegrias, do amor e das tristezas. As lamentações funerais originaram-se com as mulheres. A relegai-o tornou-se um monopólio feminino, que só foi arrancado das mãos das mulheres quando seu poder social se tornou muito importante. As mulheres foram as primeiras pesquisadoras e praticantes da medicina. Nunca houve qualquer equilíbrio claro entre os sexos porque o poder acompanha certas atividades, assim como o conhecimento.
    — Os diários roubados

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    Para a Reverenda Madre Tertius Eileen Anteac, essa fora uma manhã desastrosa. Ela havia chegado a Arrakis junto com sua companheira Reveladora da Verdade Marcus Claire Luyseyal, ambas descendo com sua comitiva oficial menos de três horas atras, na primeira lançadeira do heighliner da Corporação, flutuando em órbita estacionária. Primeiro haviam recebido quartos nos confins mais remotos do Quarteirão das Embaixadas, na Cidade Festival. E os quartos eram pequenos e não muito limpos.
    — Um pouco menos do que isso e nós estaríamos acampando nas favelas — dissera Luyseyal.
    E para completar lhes tinham sido negados instrumentos de comunicação. Todas as telas permaneciam apagadas, não importando quantos interruptores fossem acionados ou quantos controles de palma fossem girados.
    Furiosa, Anteac se dirigira à corpulenta oficial comandante da escolta de Oradoras Peixes, uma mulher irada com a testa baixa e os músculos de um trabalhador braçal.
    — Desejo queixar-me à sua Comandante!
    — Não serão permitidas queixas na época do Festival — retrucara a amazona.
    Anteac dirigira um olhar furioso à oficial, um olhar que, em seu rosto velho e cheio de vincos, costumava fazer hesitar até mesmo as suas companheiras Reverendas Madres.
    A amazona meramente sorrira, dizendo:
    — Eu tenho uma mensagem. Devo dizer-lhe que sua audiência com o Imperador-Deus foi transferida para a última posição.
    A maior parte da comitiva Bene Gesserit tinha ouvido isso, e mesmo as que ocupavam os postos inferiores reconheceram o significado. Todas as quotas de especiaria seriam mantidas ou (Que Deus nos proteja!) canceladas dessa vez.
    — Nós estávamos em terceiro lugar — disse Anteac, a voz extraordinariamente branda para aquelas circunstâncias.
    — É uma ordem do Imperador-Deus!
    Anteac reconheceu o tom de voz da Oradora Peixe. Desafiá-lo seria arriscar-se a sofrer violências.
    "Uma manhã de desastres e agora isto!"
    Anteac ocupava um banco baixo, encostado à parede de um quarto minúsculo, quase vazio, perto do centro de seus inadequados alojamentos. Ao lado havia um catre baixo, não melhor do que seria destinado a uma acólita! As paredes eram de um verde pálido, rugoso, e só havia um velho globo luminoso, tão defeituoso que só podia ser ajustado no amarelo. A sala dava mostras de ter sido uma câmara de armazenagem. Tinha cheiro de mofo. Arranhões e denteados marcavam o plástico negro do piso.
    Alisando o manto aba negro sobre os joelhos, Anteac inclinou-se para a mensageira-postulante, que se ajoelhava, a cabeça curvada diretamente em frente da Reverenda Madre. A mensageira era uma criatura loura de olhos de corça, com a transpiração do medo e da excitação no pescoço e no rosto. Usava um manto cor de bronze, empoeirado com a sujeira das ruas ao longo da bainha.
    — Você está certa, absolutamente certa? — Anteac falava com suavidade, tentando acalmar a pobre moça, que ainda tremia com a gravidade de sua mensagem.
    — Sim, Reverenda Madre. — A garota continuava olhando para o chão.
    — Repita uma vez mais — disse Anteac, e pensou: "Estou ganhando tempo. Eu a ouvi corretamente."
    A mensageira ergueu o olhar para Anteac, olhando direto em seus olhos totalmente azuis, como todas as acólitas e postulantes eram ensinadas a fazer.
    — Como me foi ordenado, fiz contato com os Ixianos em sua Embaixada e apresentei suas saudações. Então perguntei se eles tinham alguma mensagem para que eu trouxesse.
    — Sim, sim, garota! Vá ao âmago da questão.
    A mensageira engoliu em seco.
    — O porta-voz identificou-se como Othwi Yake, superior temporário na Embaixada e assistente do antigo embaixador.
    — Você está certa de que não era um Dançarino Facial substituto?
    — Nenhum dos sinais estava lá, Reverenda Madre.
    — Muito bem, nós conhecemos esse Yake. Pode continuar.
    — Yake disse que eles estavam esperando a chegada da nova...
    — Hwi Noree, a nova Embaixadora. Sim, ela é esperada hoje.
    A mensageira umedeceu os lábios com a língua.
    Anteac fez uma anotação mental para mandar de volta essa pobre criatura a um programa de treinamento mais elementar. As mensageiras deviam ter melhor autocontrole, embora algum desconto devesse ser dado quanto à seriedade dessa mensagem.
    — Ele então me pediu que esperasse — disse a mensageira.
    — Saiu da sala e voltou pouco depois com um Tleilaxu, um Dançarino Facial. Tenho certeza disso. Havia certos indícios de.
    — Tenho certeza de que está certa, menina — disse Anteac.
    — Agora vá direto ao...
    Anteac se interrompeu com a chegada de Luyseyal.
    — Que história é essa que ouvi quanto a mensagens dos Ixianos e dos Tleilaxu? — ela perguntou.
    — Esta garota está repetindo agora mesmo — disse Anteac.
    — Por que não fui chamada?
    Anteac olhou para sua companheira Reveladora da Verdade, pensando que Luyseyal poderia ser uma das melhores praticantes da arte, mas permanecia extremamente consciente do seu posto, Luyseyal era jovem, entretanto, com as sensuais feições ovais do tipo Jessica, e esses genes costumavam carregar uma natureza obstinada.
    Anteac disse suavemente:
    — Sua acólita disse que estava meditando.
    Luyseyal assentiu com a cabeça, sentou-se no catre e disse à mensageira:
    — Continue.
    — O Dançarino Facial disse que tinha uma mensagem para as Reverendas Madres. E usou o plural — disse a mensageira.
    — Ele sabia que haveria duas de nós desta vez — observou Anteac.
    — Todo o mundo sabe disso — disse Luyseyal.
    Anteac retornou sua plena atenção para a mensageira.
    — Você entraria em transe-memória agora, menina, e nos daria as palavras exatas do Dançarino Facial?
    A mensageira assentiu, agachou-se nos calcanhares e colocou ambas as mãos sobre o colo. Respirou fundo três vezes, fechou os olhos e arriou os ombros. Quando ela falou, sua voz tinha um tom nasal agudo.
    — Diga às Reverendas Madres que ao cair desta noite o Império estará livre de seu Imperador-Deus. Nós atacaremos hoje, antes que ele alcance Onn. Não falharemos.
    Uma inspiração profunda fez tremer a mensageira. Seus olhos se abriram e ela olhou para Anteac.
    — O Ixiano, Yake, disse para que eu corresse com esta mensagem. Depois tocou as costas da minha mão esquerda daquele modo particular, convencendo-me ainda mais de que ele não era...
    — Yake é um dos nossos — disse Anteac. — Diga a Luyseyal sobre a mensagem dos dedos.
    A mensageira olhou para Luyseyal.
    — Nós fomos invadidos por Dançarmos Faciais e não podemos nos mover.
    Quando Luyseyal se sobressaltou e começou a se levantar. Anteac disse:
    — Já tomei as medidas necessárias para guardar nossas portas. — Anteac olhou em seguida para a mensageira. — Você pode ir agora, garota. Desempenhou sua tarefa de maneira adequada.
    — Sim, Reverenda Madre.
    A mensageira ergueu seu corpo flexível com certa graça, mas não havia dúvida em seus movimentos de que ela conhecia a importância das palavras de Anteac. Adequado não era bem-feito.
    Depois que a mensageira saiu, Luyseyal disse:
    — Ela devia ter conseguido alguma desculpa para estudar a Embaixada e descobrir quantos Ixianos foram substituídos.
    — Acho que não — discordou Anteac. — A esse respeito, ela agiu bem. Não, mas teria sido melhor se ela tivesse encontrado um modo de conseguir um relatório mais detalhado de Yake. Temo que o tenhamos perdido.
    — A razão pela qual os Tleilaxu nos enviaram a mensagem é óbvia — disse Luyseyal.
    — Eles vão realmente atacá-lo — disse Anteac.
    — Naturalmente. E o que os tolos vão fazer. Mas eu me pergunto por que eles nos enviaram essa mensagem.
    Anteac assentiu.
    — Eles acham que não temos escolha agora senão nos juntarmos a eles.
    — E se tentarmos advertir Lorde Leto, os Tleilaxu descobrirão nossas mensageiras e seus contatos.
    — E se os Tleilaxu tiverem sucesso? — perguntou Anteac.
    — Pouco provável.
    — Não conhecemos seu verdadeiro plano, apenas a hora, mais ou menos.
    — E essa garota, Siona, tem parte nisso? — perguntou Luyseyal.
    — Fiz a mesma pergunta a mim mesma. Já ouviram o relatório completo da Corporação?
    — Somente o resumo. Não é o bastante?
    — Sim, com elevada probabilidade.
    — Você deve ser cuidadosa com termos como elevada probabilidade — advertiu Luyseyal. — Não queremos ninguém pensando que é um Mentat.
    O tom de Anteac foi ríspido.
    — Presumo que não vai me revelar.
    — Acha que a Corporação está certa a respeito dessa Siona? — indagou Luyseyal.
    — Não tenho informação suficiente. Se eles estão certos, ela é algo de extraordinário.
    — Como o pai de Lorde Leto era extraordinário?
    — Um navegador da Corporação podia ocultar-se do olhar oracular do pai de Lorde Leto.
    — Mas não de Lorde Leto.
    — Li com cuidado o relatório completo da Corporação. Ela não apenas oculta a si mesma e as ações em torno dela, mas também...
    — Ela se apaga. Ela se apaga da visão deles.
    — Ela apenas — disse Anteac.
    — E da visão de Lorde Leto também?
    — Eles não sabem.
    — Nós nos atreveríamos a fazer contato com ela?
    — Não nos atreveríamos? — perguntou Anteac.
    — Isso tudo pode ser discutível se os Tleilaxu... Anteac, devemos ao menos fazer uma tentativa de avisá-lo.
    — Não temos equipamento de comunicação e agora há guardas Oradoras Peixes na porta. Elas deixam nosso pessoal entrar, mas não deixam sair.
    — Devemos falar com uma delas?
    — Já pensei nisso. Sempre podemos alegar que temíamos que fossem substitutos Dançarmos Faciais.
    — Guardas na porta — murmurou Luyseyal. — Será possível que ele saiba?
    — Tudo é possível.
    — Sobre Lorde Leto, essa é a única coisa que você pode dizer com certeza? — comentou Luyseyal.
    Anteac permitiu-se um leve suspiro enquanto se levantava do banco.
    — Como sinto saudade dos velhos tempos, quando tínhamos toda a especiaria de que jamais pudéssemos precisar.
    — Jamais era apenas outra ilusão — respondeu Luyseyal. — Espero que tenhamos aprendido bem esta lição, não importa de que maneira os Tleilaxu se saiam hoje.
    — Qualquer que seja o resultado, eles o farão de modo grosseiro — resmungou Anteac. — Deuses! Não se encontram mais bons assassinos em parte alguma.
    — Há sempre os gholas Idahos — disse Luyseyal.
    — Que você disse? — Anteac olhou para a companheira.
    — Existem sempre os.
    — Sim!
    — Os gholas são muito lentos de corpo — comentou Luyseyal.
    — Mas não de mente.
    — Em que está pensando?
    — É possível que os Tleilaxu... não, nem mesmo eles poderiam ser tão.
    — Um Dançarino Facial Idaho? — sussurrou Luyseyal.
    Anteac assentiu mudamente.
    — Tire isso de sua cabeça — disse Luyseyal. — Eles não poderiam ser tão estúpidos.
    — Esse é um julgamento perigoso de se fazer quanto aos Tleilaxu — disse Anteac. — Devemos preparar-nos para o pior. Traga aqui uma daquelas guardas Oradoras Peixes!


    O estado de guerra incessante dá origem a suas próprias condições sociais, que têm sido similares em todas as épocas. As pessoas entram num permanente estado de alerta para evitar ataques. E você presencia a regra absoluta do autocrata. Todas as coisas novas tornam-se perigosas regiões de fronteiras — novos planetas, novas áreas econômicas para explorar, novas idéias ou novos engenhos, visitantes — tudo é suspeito. O feudalismo se estabelece com firmeza, algumas vezes disfarçado como um politburo ou estrutura similar, mas sempre presente. A sucessão hereditária segue as linhas do poder. O sangue dos poderosos domina. Os vice-regentes do céu ou seus equivalentes apoderam-se das riquezas. E eles sabem que devem controlar seus herdeiros ou então o poder lentamente lhes escapará. Agora pode compreender a Paz de Leto?
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    — As Bene Gesserits terão sido informadas de sua mudança na ordem das audiências? — indagou Leto.
    Seu cortejo aproximava-se do primeiro corte na montanha que levaria ao trecho serpenteante da estrada, aproximando-se da ponte sobre o Rio Idaho. O sol encontrava-se no primeiro quarto da manhã e alguns cortesãos retiravam seus casacos. Idaho caminhava com uma pequena tropa de Oradoras Peixes no flanco esquerdo, seu uniforme começando a mostrar sinais de poeira e transpiração. Acompanhar a velocidade da peregrinação real era trabalho duro.
    Moneo tropeçou e recuperou o equilíbrio.
    — Elas foram informadas, Senhor.
    A mudança não fora fácil, mas Moneo já aprendera a esperar erráticos desvios de direção em tempos de Festival. Ele mantinha prontos seus planos de contingência.
    — Elas ainda estão solicitando uma Embaixada permanente em Arrakis? — indagou Leto.
    — Sim, Senhor. Eu lhes dei a resposta habitual.
    — Um simples não seria suficiente — disse Leto. — Elas não precisam mais ser lembradas de que abomino suas pretensões religiosas.
    — Sim, Senhor.
    Moneo mantinha-se apenas dentro da distância prevista, do lado da Carreta de Leto. O Verme encontrava-se muito presente esta manhã — os sinais corpóreos bem evidentes aos olhos de Moneo. Sem dúvida, era a umidade no ar. Isso sempre parecia atrair o Verme.
    — A religião sempre conduz ao despotismo retórico — disse Leto. — Antes da Bene Gesserit, os jesuítas eram os melhores nisso.
    — Jesuítas, Senhor?
    — Certamente você os encontrou em suas histórias?
    — Não tenho certeza, Senhor. Quem eram eles?
    — Não importa. Você aprenderá o bastante sobre despotismo retórico num estudo da Bene Gesserit. É claro que elas não começam se iludindo com isso.
    "As Reverendas Madres vão passar um mau pedaço", Moneo disse a si mesmo. "Ele vai pregar diante delas. E elas detestam isso. Podemos ter sérios problemas."
    — Qual foi a reação delas? — perguntou Leto.
    — Disseram-me que elas ficaram desapontadas, mas não insistiram no assunto.
    E Moneo pensou: "É melhor que eu as prepare para mais desapontamentos. E elas terão de ficar longe das delegações de Ix e Tleilaxu."
    Moneo sacudiu a cabeça. Isso poderia levar a conspirações terríveis. Era melhor que o Duncan fosse advertido.
    — Ele leva à profecia em proveito próprio e a justificativas para todos os tipos de obscenidades — disse Leto.
    — Esse... despotismo retórico, Senhor?
    — Sim! Ele oculta o mal por trás de muralhas de hipocrisia, que são a prova de qualquer argumento que possa ser apresentado contra. o mal.
    Moneo mantinha um olhar cauteloso no corpo de Leto, notando o modo como as mãos se torciam, quase um movimento ao acaso, as contorções dos grandes segmentos. "Que farei se o Ver-me despertar aqui?" A transpiração surgiu na testa de Moneo.
    — Ele se alimenta de significados deliberadamente distorcidos para desacreditar a oposição — continuou Leto.
    — Tudo isso, Senhor?
    — Os jesuítas chamavam isso de "segurar sua base de poder". Isso conduz diretamente à hipocrisia, que é sempre revelada pela diferença entre ações e explicações. Elas nunca concordam.
    — Devo estudar isso com mais cuidado, Senhor.
    — E no final ele governa pela culpa, pois a hipocrisia traz a caça às bruxas e a exigência de bodes expiatórios.
    — Isso é chocante, Senhor.
    O cortejo circundou um canto onde a rocha fora aberta para vislumbrar a ponte a distância.
    — Moneo, você está prestando bastante atenção em mim?
    — Sim, Senhor, de fato.
    — Estou descrevendo o instrumento que constitui a base do poder religioso.
    — Eu reconheço isso, Senhor.
    — Então, por que está com tanto medo?
    — Conversas sobre o poder religioso me deixam pouco à vontade, Senhor.
    — Porque você e as Oradoras Peixes o exercem em meu nome?
    — É claro, Senhor.
    — As bases do poder são muito perigosas por atraírem gente que é verdadeiramente insana, gente que busca o poder apenas pelo benefício do poder. Está me compreendendo?
    — Sim, Senhor. É por isso que raramente atendo a pedidos para nomeações em seu governo.
    — Excelente, Moneo!
    — Obrigado, Senhor.
    — À sombra de cada religião se abriga um Torquemada disse Leto. — Você nunca encontrou esse nome. Eu sei, pois fiz com que fosse expurgado de todos os registros.
    — Por que fez isso, Senhor?
    — Ele era uma obscenidade. Transformava em tochas vivas as pessoas que discordavam dele.
    Moneo falou em voz baixa:
    — Como fez com os historiadores que o enfureceram, Senhor?
    — Está questionando os meus atos, Moneo?
    — Não, Senhor!
    — Bom. Os historiadores morreram pacificamente. Nenhum deles sentiu as chamas. Torquemada, entretanto, comprazia-se em dedicar ao seu deus os gritos de agonia de suas vítimas em chamas.
    — Que horrível, Senhor.
    O cortejo contornou outra curva e enxergou novamente a ponte. O vão não parecia mais próximo.
    Uma vez mais Moneo observou seu Imperador-Deus. O Verme não parecia ter se aproximado mais, embora ainda continuasse perto. Moneo podia sentir a ameaça daquela imprevisível presença, a Sagrada Presença, que poderia matar sem aviso.
    Ele estremeceu.
    Qual teria sido o significado daquele estranho... sermão? Moneo sabia que poucos já tinham ouvido o Imperador-Deus falar assim. Era um privilégio e uma carga. Era parte do preço pago pela Paz de Leto. Geração após geração marchara a seu modo ordenado sob os preceitos daquela paz. Apenas o círculo interno da Cidadela conhecia todas as quebras pouco freqüentes daquela paz — os incidentes, quando as Oradoras Peixes eram enviadas numa previsão de violência:
    "Previsão."
    Moneo olhou para Leto, agora silencioso. Os olhos do Imperador-Deus estavam fechados e uma aparência de meditação surgira em seu rosto. Esse era outro dos sinais do Verme — e um dos piores. Moneo estremeceu.
    Será que Leto previra seus próprios momentos de louca violência? Fora a previsão de violência que enviava tremores de medo e espanto através do Império. Leto sabia onde devia colocar guardas para sufocar revoltas transitórias. Sabia antes que acontecessem.
    Só pensar nessas coisas deixava seca a boca de Moneo. Havia ocasiões, Moneo acreditava, em que o Imperador-Deus podia ler qualquer mente. Oh, Leto empregava espiões. Uma ocasional figura envolta em mantos passava pelas Oradoras Peixes para subir a elevada torre de Leto ou descer em sua cripta. Espiões, sem dúvida, mas Moneo suspeitava de que fossem usados apenas para confirmar aquilo que Leto já sabia.
    Como que para confirmar os temores na mente de Moneo, Leto disse:
    — Não tente forçar um entendimento dos meus modos, Moneo. Deixe que o entendimento venha por si mesmo.
    — Vou tentar, Senhor.
    — Não, não tente. Diga-me em vez disso se já anunciou que não haverá mudanças nas quotas de especiaria?
    — Ainda não, Senhor.
    — Atrase o anúncio. Estou mudando de opinião. Você sabe, é claro, que haverá novas ofertas de subornos.
    Moneo suspirou. As quantias a ele oferecidas como suborno já eram ridículas de tão altas. Leto, contudo, parecia divertir-se com tal escalada.
    — Instigue-os — dissera antes. — Veja até que preço eles chegarão. Faça parecer que você pode ser subornado, afinal.
    Agora, enquanto eles dobravam outra curva com vista para a ponte, Leto perguntou:
    — A Casa Corrino ofereceu-lhe suborno?
    — Sim, Senhor.
    — Conhece a lenda que diz que um dia a Casa Corrino irá recuperar seus poderes ancestrais?
    — Já ouvi, Senhor.
    — Mate o Corrino. É tarefa para o Duncan. Nós o testaremos com isso.
    — Tão cedo, Senhor?
    — Ainda se sabe que a melange pode prolongar a vida humana. Deixe que seja conhecido que a especiaria também pode encurtar a vida.
    — Como ordenar, Senhor.
    Moneo conhecia essa resposta dentro de si. Era o modo como ele falava quando não podia verbalizar a profunda objeção que sentia. Também sabia que Leto entendia isso e se divertia. O divertimento o amargurava.
    — Tente não ser impaciente comigo, Moneo — disse Leto.
    Moneo suprimiu seu sentimento de amargura. A amargura trazia o perigo. Os rebeldes eram amargurados. E os Duncans ficavam amargurados antes de morrer.
    — O tempo tem para o Senhor um significado diferente do que tem para mim — disse Moneo. — Eu desejava poder conhecer esse significado.
    — Você poderia, mas não o fará.
    Moneo ouviu a censura nas palavras e ficou em silêncio, voltando seus pensamentos para os problemas com a melange. Não era comum que Lorde Leto falasse na especiaria, e quando o fazia era para estabelecer quotas ou retirá-las, para conceder recompensas ou enviar as Oradoras Peixes atrás de algum tesouro recentemente revelado. O maior depósito remanescente de especiaria, Moneo o sabia, encontrava-se em algum lugar conhecido apenas do Imperador-Deus. Em seus primeiros dias no Serviço Real, Moneo fora coberto com um capuz e levado pelo próprio Leto ao longo de passagens serpenteantes que, Moneo sentira, encontravam-se debaixo da terra.
    "Quando tirei o capuz estava num subterrâneo."
    O lugar o enchera de assombro. Grandes recipientes de melange empilhavam-se numa câmara gigantesca, cortada na rocha nua e iluminada por globos luminosos de um modelo antigo, com arabescos de metal em redor. A especiaria brilhava num azul radiante sob a fraca luz prateada. E o perfume — cheiro de canela amargo, inconfundível. Havia água gotejando num lugar próximo e suas vozes tinham ecoado dentro da pedra.
    — Um dia, tudo isto terá acabado — dissera Lorde Leto.
    Chocado, Moneo perguntara:
    — E o que a Corporação e a Bene Gesserit farão então?
    — O que estão fazendo agora, só que de modo mais violento.
    Olhando à sua volta nessa gigantesca câmara subterrânea, com seu imenso estoque de melange, Moneo só conseguia pensar nas coisas que sabia estarem acontecendo por todo o Império naquele momento: — assassinatos sangrentos, ataques piratas, intriga e espionagem. O Imperador-Deus evitava o pior, mas o que permanecia já era suficientemente ruim.
    — A tentação — sussurrou Moneo.
    — A tentação, de fato.
    — Não vai haver melange nunca mais, Senhor?
    — Algum dia eu retornarei à areia. E serei a fonte da especiaria, então.
    — O Senhor?
    — E produzirei uma coisa igualmente maravilhosa — truta da areia de uma variedade híbrida e mais prolífica.
    Trêmulo ante essa revelação, Moneo olhou para a figura obscurecida do Imperador-Deus que falava de tais maravilhas.
    — A truta da areia — disse Lorde Leto. — Elas se unirão em grandes bolhas vivas que aprisionarão a água deste planeta no subsolo profundo. Exatamente como era nos tempos de Duna.
    — Toda a água, Senhor?
    — A maior parte dela. E dentro de 300 anos o verme da areia reinará aqui uma vez mais. E será um novo tipo de verme da areia. Eu lhe prometo isso.
    — Como assim, Senhor?
    — Ele possuirá uma consciência animal e uma nova esperteza. A especiaria será muito mais perigosa de se obter e bem mais arriscada de ser mantida.
    Moneo olhara para o teto da caverna, sua imaginação sondando através da rocha até a superfície.
    — Tudo deserto novamente, Senhor?
    — Os cursos de água se encherão de areia. As plantações serão sufocadas e mortas. As árvores serão cobertas por grandes dunas móveis. E a morte da areia se espalhará até... até que um sinal sutil seja ouvido nas terras desoladas.
    — Que sinal, Senhor?
    — O sinal para o próximo ciclo, a vinda do Produtor, a chegada do Shai-Hulud.
    — E ele será o Senhor?
    — Sim! O grande verme da areia de Duna se erguerá uma vez mais das profundezas. E esta terra será novamente o domínio da especiaria e do verme.
    — Mas e quanto às pessoas, Senhor? Todas as pessoas?
    — Muitas vão morrer. As plantas nutritivas e a abundante vegetação destas terras ficarão ressecadas. Sem nutrição, os animais de corte morrerão.
    — E todos passarão fome, Senhor?
    — A subnutrição e as velhas doenças se espalharão sobre a terra, onde apenas os mais duros sobreviverão... os mais duros e os mais brutais.
    — Precisa ser assim, Senhor?
    — As alternativas são piores.
    — Fale-me dessas alternativas, Senhor.
    — Com o tempo, irá conhecê-las.
    Enquanto caminhava ao lado do Imperador-Deus, sob a luz matutina de sua peregrinação para Onn, Moneo podia admitir apenas que tinha, de fato, aprendido os perigos alternativos.
    Para a maioria dos dóceis cidadãos do Império, Moneo sabia, o firme conhecimento que ele mantinha em sua própria cabeça jazia oculto na História Oral, nos mitos e nas histórias extravagantes contadas pelos raros profetas loucos que surgiam num planeta ou em outro para conquistar um séquito de vida curta.
    "Mas eu sei o que fazem as Oradoras Peixes."
    E ele sabia também a respeito de homens perversos, que se sentavam à mesa, saboreando iguanas raras, enquanto observavam a tortura de seus semelhantes.
    Até que as Oradoras Peixes chegassem e a carnificina apagasse tais cenas.
    — Eu apreciava o modo como sua filha me observava — disse Leto. — Ela era tão inconsciente de que eu sabia.
    — Senhor, temo por ela! Ela é o meu sangue, minha.
    — Minha também, Moneo. Não sou um Atreides? Você devia temer mais por si mesmo.
    Moneo lançou um olhar temeroso ao longo do corpo do Imperador-Deus. Os sinais do verme permaneciam muito próximos. Moneo olhou para o cortejo seguindo pela estrada. Estavam agora em uma descida íngreme, as voltas da estrada curtas e escavadas nas altas muralhas de rochas empilhadas pela mão do homem que formavam a barreira de penhascos envolvendo o Sareer.
    — Siona não me ofende, Moneo.
    — Mas ela...
    — Moneo! Aqui, em sua misteriosa cápsula, se encontra um dos maiores segredos da vida. Estar surpreso de que alguma coisa nova tenha acontecido, isso é o que eu desejo mais.
    — Senhor, eu...
    — Novo! Essa não é uma palavra radiante e maravilhosa?
    — Se diz assim, Senhor.
    Leto se viu forçado a lembrar então: "Moneo é uma de minhas criaturas. Eu o criei.
    — Sua filha vale quase qualquer preço para mim, Moneo. Você deprecia os companheiros dela, mas pode haver um entre eles a quem ela ame.
    Moneo deu uma olhada involuntária para trás, na direção do Duncan Idaho marchando entre a guarda. Idaho olhava para a frente como se tentasse sondar cada curva da estrada antes de chegarem a ela. Ele não gostava desse lugar, com suas altas muralhas de pedra para todo lado, lugares de onde poderia brotar um ataque. Idaho enviara batedoras lá para cima durante a noite e Moneo sabia que algumas delas ainda estariam rondando nas alturas. Havia ravinas também, lá na frente, antes que a marcha alcançasse o rio, e não havia guardas suficientes para serem colocados por toda parte.
    — Nós confiaremos nos Fremen — dissera Moneo para tranqülizá-lo.

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    — Fremen? — Idaho não gostava do que tinha ouvido a respeito dos Fremen de Museu.
    — Pelo menos eles podem soar um alarme contra intrusos — dissera Moneo.
    — Você os viu e lhes pediu para fazerem isso?
    — É claro.
    Moneo não se atrevera a falar sobre Siona com Idaho. Haveria bastante tempo para isso mais tarde, mas agora o Imperador-Deus dissera uma coisa perturbadora. Teria havido uma mudança de planos?
    Moneo voltou sua atenção para o Imperador-Deus e baixou seu tom de voz.
    — Amar um companheiro, Senhor? Mas disse que o Duncan...
    — Eu disse amar, não procriar com ele!
    Moneo tremeu, pensando em como seu próprio casamento tinha sido arranjado, a maneira como fora arrancado de.
    "Não! É melhor não seguir tais memórias!"
    Tinha havido afeição, mesmo um amor verdadeiro... depois, mas nos primeiros dias.
    — Está sonhando acordado novamente, Moneo.
    — Perdoe-me, Senhor, mas quando fala de amor...
    — Acha que não tenho pensamentos amorosos?
    — Não é isso, Senhor, mas...
    — Pensa que não tenho memórias de amor e procriação, hein?!
    A carreta desviou-se na direção de Moneo, forçando-o a se esquivar, assustado pelo olhar furioso no rosto de Lorde Leto.
    — Senhor, eu lhe suplico...
    — Este corpo pode nunca ter conhecido tais carinhos, mas todas as memórias são minhas!
    Moneo podia perceber os sinais do Verme tornando-se mais dominantes no corpo do Imperador-Deus, e não havia escapatória em reconhecer esse estado.
    "Estou correndo grave perigo. Todos nós estamos." Moneo tornou-se consciente de cada som à sua volta, os estalidos da Carreta Real, a tosse e as conversas em voz baixa no séquito, os pés na rodovia. Havia uma exalação de canela no Imperador-Deus. O ar ali, entre estas paredes de rocha, ainda guardava o frio da madrugada e havia umidade vinda do rio.
    Estaria essa umidade atraindo o Verme?
    — Escute-me, Moneo, como se a sua vida dependesse disto.
    — Sim, Senhor — sussurrou Moneo, e ele sabia que a sua vida dependia do cuidado que tomasse agora, não apenas em ouvir, mas em observar.
    — Uma parte de mim habita para sempre os subterrâneos irracionais — disse Leto. — Essa parte reage. Ela faz coisas sem se preocupar com a sabedoria ou a lógica.
    Moneo assentiu com a cabeça, sua atenção colada no rosto do Imperador-Deus. Estariam seus olhos a ponto de esgazearem?
    — Eu me vejo forçado a me desligar e observar essas coisas. Nada mais — disse Leto. — E tal reação poderia causar a sua morte. A escolha não é minha. Está me ouvindo?
    — Eu o ouço, Senhor — sussurrou Moneo.
    — Não existe algo como capacidade de escolha em tal acontecimento! Você meramente o aceita. Nunca irá entendê-lo ou conhecê-lo. Que me diz disso?
    — Eu temo o desconhecido, Senhor.
    — Mas eu não o temo. Diga-me por quê!
    Moneo estivera esperando uma crise como essa, e agora que viera quase lhe dava as boas-vindas. Sabia que sua vida dependeria dessa resposta. Ele olhou para o Imperador-Deus, a mente voando.
    — É por causa de todas as suas memórias, Senhor.
    — Sim?
    Uma resposta incompleta, então. Moneo lutou tentando encontrar palavras.
    — Pode ver tudo aquilo que conhecemos... tudo como já foi... desconhecido! Uma surpresa para o senhor... uma surpresa deve ser apenas alguma coisa nova para que a conheça?
    Enquanto falava, Moneo percebia ter colocado um defensivo ponto de interrogação em alguma coisa que deveria ter sido uma declaração atrevida, mas o Imperador-Deus apenas sorriu.
    — Por tamanha sabedoria eu lhe concedo um pedido, Moneo. Que é que deseja?
    O súbito alívio apenas abriu caminho para que outros temores emergissem.
    — Seria possível eu trazer Siona de volta para a Cidadela?
    — Isso fará com que eu a teste mais cedo.
    — Ela deve ser separada de seus companheiros, Senhor.
    — Muito bem.
    — Meu senhor é gentil.
    — Eu sou é egoísta.
    O Imperador-Deus tirou os olhos de Moneo e ficou silencioso.
    Olhando ao longo do corpo segmentado, Moneo observou que os sinais do Verme haviam diminuído de alguma forma. Isso tinha acabado bem, afinal, mas ele pensou nos Fremen com seus pedidos e o medo voltou.
    "Aquilo foi um erro. Eles só vão provocá-lo novamente. Por que eu fui dizer que eles poderiam apresentar seu pedido?"
    Os Fremen estariam esperando adiante, reunidos deste lado do rio com seus tolos papéis sendo acenados nas mãos.
    Moneo marchou em silêncio, a apreensão aumentando a cada passo.
    Por aqui a areia sopra; por aqui a areia sopra
    Por aqui o homem rico espera; por aqui ele espera.
    — A Voz do Shai-Hulud,
    Da História Oral
    O relato de Irmã Chenoeh, encontrado em meio a seus papéis, depois de sua morte:
    Eu obedeço tanto a meu juramento como Bene Gesserit quanto às ordens do Imperador-Deus, retirando estas palavras de meu relatório mas escondendo-as de modo a que possam ser descobertas depois da minha morte. Pois Lorde Leto me disse:
    — Retorne às suas Superioras com a minha mensagem, mas por ora mantenha estas palavras em segredo. Minha ira visitará a sua Irmandade se você falhar.
    Como a Reverenda Madre Syaksa me avisara antes de eu partir:
    — Você não deve fazer coisa alguma que traga a ira dele sobre nós.
    Enquanto eu caminhava ao lado de Lorde Leto, naquela curta peregrinação de que falei, pensei em lhe indagar a respeito de sua semelhança com uma Reverenda Madre. Eu disse:
    — Senhor, sei como uma Reverenda Madre adquire as memórias de suas ancestrais e de outras. Mas como foi com o Senhor?
    — Foi uma adaptação de nossa história genética e o trabalho da especiaria. Minha irmã gêmea Ghanima e eu fomos despertados no ventre materno, colocados antes do nascimento na presença de nossas memórias ancestrais.
    — Senhor... minha Irmandade chama isso de Abominação.
    — E com toda a razão — disse Lorde Leto. — O número de ancestrais pode ser esmagador. E quem pode saber antes de acontecer que força irá comandar tal horda — o bem ou o mal?
    — Senhor, como dominou tal força?
    — Eu não a dominei — disse Lorde Leto. — Mas a persistência do modelo faraônico salvou a mim e a Ghani. Conhece esse modelo, Irmã Chenoeh?
    — Nós da Irmandade somos bem instruídas em história, Senhor.
    — Sim, mas vocês não pensam nisso como eu penso. Falo de uma doença de governo que foi apanhada pelos gregos, que a espalham pelos Romanos, os quais a distribuíram de maneira tão ampla e vasta que ela nunca morreu de todo.
    — Meu Senhor fala através de enigmas?
    — Não, não enigmas. Odeio essa coisa, mas ela nos salvou. Ghani e eu formamos poderosas alianças interiores com ancestrais que seguiam o modelo faraônico. Eles nos ajudaram a formar uma identidade mútua com aquela multidão há muito adormecida.
    — Acho isso perturbador, Senhor.
    — E realmente deve.
    — Por que está me contando isso agora, Senhor? Nunca respondeu a uma de nós dessa maneira, não que eu saiba.
    — Porque você me ouve bem, Irmã Chenoeh; porque irá me obedecer e porque nunca mais vou vê-la.
    Lorde Leto pronunciou para mim essas estranhas palavras e então me indagou:
    — Por que não perguntou a respeito do que Sua Irmandade chama de minha tirania insana?
    Estimulada por essas palavras, arrisquei-me à dizer:
    — Senhor, sabemos de algumas de suas sangrentas execuções. Elas nos perturbam.
    Lorde Leto então fez uma coisa estranha. Fechou os olhos enquanto prosseguíamos e então disse:
    — Como sei que você foi treinada para registrar precisamente quaisquer palavras que ouça, eu lhe falarei agora, Irmã Chenoeh, como se fosse uma página de um de meus diários. Preserve bem estas palavras porque não quero que sejam perdidas.
    Asseguro agora à minha Irmandade que o que se segue são as palavras pronunciadas por Lorde Leto, exatamente como saíram de sua boca.
    — Tenho certeza de que, quando não estiver mais aqui, presente de forma consciente entre vocês, quando estiver aqui apenas como uma terrível criatura do deserto, muitas pessoas me considerarão um tirano.

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